
A Primeira Tortura de uma seqüência de 7, a mais física de todas, é a provocada pela dor física. Está relacionada ao elemento fogo entre o quarteto dos elementos. Pelo menos todas as criaturas cordadas estão sujeitas ao mecanismo da dor física, que originalmente era o dispositivo que um indíviduo tem para notar que sua saúde ou integridade física estão ameaçadas. Quando esse mecanismo é intensionalmente provocado por outros indivíduos, pode-se coroar tal sofrimento derivado como digno do primeiro grau da agonia infernal. Não é necessário nenhum nível de consciência acima de qualquer mamífero para experimentar as múltiplas formas que a dor pode assumir, seja em intensidade, extensão do corpo, freqüência ou duração.
Há milênios essa forma de tortura é amplamente utilizada pela “humanidade”, seja com intuito de obter algo, seja como vingança ou simplesmente macabra diversão. Mas a dor física pertence ao mundo fenomênico e só dura enquanto o corpo vive com seu sistema neural ativado. A cena inicia-se com uma longa introdução de acordes dissociados e o personagem é conduzido a deitar-se numa placa de estanho incandescente, onde ficará ali atado por todas as 7 Torturas. No instante do contato, o coral entoa os versos da 17ª ária “Gritos, Hinos Malditos“:
Na letra encontramos:
- Afirmação em forma de pergunta de que a dor em seu nível máximo extrapolaria qualquer outro sofrimento vivido;
- A resposta veemente do personagem que a Primeira Tortura é irrisoriamente tênue em comparação ao que ele realmente vivenciou;
- Uma contra-resposta do Gorgomestre solicitando ao Demiurgo, que antes de avançar nas Torturas posteriores, torne o personagem incapaz de suplicar a Deus alguma intervenção, aludindo à vida anterior do personagem quando este teria agido contra si mesmo.
“Nesta chapa ardente agora digas o que é dor
E repita a quem acredita se haverá um tormento maior.
Em teus dias, teus longos dias, que retiraste da terra o ar
Não provaste os males das tormentosas chamas que te tocam aonde for.
Gritos, hinos malditos, foram proscritos de meu estupor.
Se nos deixa aqui queimando, são gotas em meu oceano de dor.
Foi na cruz que um dia ouvi proclamar tua própria maldição.
Eu vos peço, oh mestre das trevas, que o impeça de invocar
O nome Daquele que tudo pode, tudo vê e em tudo está.“
Tal como na ária anterior, esta termina em sol menor e com essas últimas palavras pronunciadas, um silêncio é dado como preparativo da Segunda Tortura e para que seja concedida a solicitação do Gorgomestre.

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