Lá no alto algo brilhava com uma luz branco-azulada e parecia se aproximar. Nós apenas olhávamos sem nem mais entender como estávamos conscientes. Ao chegar mais perto, identificamos uma forma humana. Pensei: “Será Deus ou algo similar? Então A reconheci! Aquela à qual minha vida era minha única função de mim e talvez até do Universo existir. Aquela a quem tudo parecia claro e sob controle. Invulnerável como um diamante, sua beleza nos fazia ver de perto o poder de Deus ao reunir em uma só pessoa toda a Beleza do Cosmo. Imediatamente voltamos à Consciência e sua paz nos acalmou. Ela disse”:
S. — Rouxinol, estou aqui para te ajudar e para isso é necessário que coopere.
R. — O que ocorreu? Estou Morto? Nós estamos Mortos? Onde é aqui?
S. — Ninguém está morto. Não sabe que o que chamam de morte é uma ilusão do corpo? Mas para os encarnados nós estamos mortos e para os considerados mortos são os primeiros quem estão.
R. — O que quer que eu faça?
S. — Simplesmente peço que venha ver comigo o que me foi permitido te mostrar.
De repente saímos daquele doce transe quando começamos a nos elevar como se a gravidade deixasse de existir. Subimos e olhávamos lá embaixo. A essa distância, a penumbra que deixamos não Parecia mais tão aterradora.
Passamos por Diversas Camadas de Nuvens não mais avistando a Terra, e saímos da órbita em velocidades imponderáveis sem sentirmos até chegarmos em uma gigantesca esfera de Cristal multifacetada onde tudo era Luz sem Sombras. Não mais avistei as crianças e preocupado perguntei por elas. Ela calmamente respondeu:
S. — Neste mundo elas não existem. Cada uma delas era um lado seu, uma sombra sua que sumiu ante à luz de sua essência agora revelada. Aqui só existem as Essências e não suas manifestações.
Vi um enorme auditório onde outros estavam perguntando lá a razão de suas vidas e sofrimentos e que rumos deveriam tomar. Outros menos numerosos, lá na frente explicavam-lhes o que viveram em escala transexistencial a causa vivida de cada adversidade. Então, como se por reflexo impensado, gritei perguntando o que fiz que justificasse minha condenação. Todos assustados calaram-se. Alguns entreolharam-se. Um deles procurou num grande livro algo que me respondesse e não achando limitou-se, hesitante em me olhar, a dizer: — Está em suas vidas passadas, mas aqui não temos acesso às suas, pois suponho ser algo muito grave para ser uma condenação. Foi uma determinação do Altíssimo.
Então, muito irritado, continuei inconformado:
R. — Algo grave?!? Mais do que terroristas, assassinos, estupradores e criminosos de todos os gêneros aqui presentes? Se é para acusar que vocês servem, exijo que me digam o que fiz para ter uma pena pior que a de todos esses aí!
Como se estivessem diante de um psicótico, recuaram apavorados e foram discretamente se retirando sem tirarem as vistas de mim por precaução. Olhei por minha conta no livro, mas só achei a continuação da história do criador de flores antes relatada. Enquanto lia, lembrava:
“Muitos anos se passaram, muitas flores haviam germinado e a situação do mundo era outra. Quase já não havia oxigênio na Terra e a população multiplicava-se. O criador de flores não era mais uma criança e agora sua atividade era importante, pois ele colocou as plantas bastante resistentes em atmosfera de dióxido de carbono fazendo-as produzir oxigênio pra dar e vender. Porém ele ainda não podia fazer parte da “sociedade” por completo; o efeito do ácido injetado em seu corpo produziu deformidades irreversíveis tornando-o uma criatura apavorante. Seus olhos esbugalhados assustava as crianças de longe, seus braços e pernas anêmicas lembravam os famintos da antiga Somália. Cada extensão de seu corpo era uma aberração caricaturizada da pretensa forma humana como se ele quisesse por sua vontade própria ridicularizar a espécie dita Sapiens.
Evitado por tudo e por todos perambulava em suas atividades de vendedor de oxigênio produzido incessantemente pelas suas raras plantas. Sua presença era delicadamente evitada pelas mulheres do mundo e apedrejado por todos os homens que se sentissem agredidos por semelhante visão.
Sentindo que agora o mundo já poderia estar predisposto a cultivar plantas, passou a oferecê-las nas casas onde fornecia o raro gás:
R. — Senhorita, vim trazer-te vosso oxigênio.
— Sim, aceito de bom grado. Ponha-o na porta por favor.
R. — Eu também te ofereço esta flor para cultivá-la e assim renovar o oxigênio em vossa casa.
— Ponha-a na porta também, obrigada.
R. — Senhorita, a muitos anos te entrego oxigênio; Posso entrar para conhecê-la?
— Desculpe-me, mas não.
R. — Por que não?
Eu não o suportaria. Sua aparência é por demais aviltante. O terror da visão me enausearia e as crianças adoeceriam.
Em outra casa tentou:
R. — Senhorita, junto com o vosso oxigênio diário, venho te entregar esta flor.
— Obrigada, eu a porei em um vaso de Cristal.
R. — Posso mostrar como cuidar dela se eu puder entrar.
— Então eu não a quero.
R. — Por que?
Porque eu não sobreviveria um minuto em sua imagem multiplicada pelos espelhos cristalinos de minha casa. O tormento seria insuportável ante a sordidez de sua forma e nós sucumbiríamos perante tanta podridão supostamente humana reunida em um só corpo.
E ainda em outra casa se atreveu:
R. — Venho entregar vosso oxigênio, senhorita.
— Entre, por favor!
R. — Eu posso entrar?
— Sim, claro!
R. — Trouxe-te também esta flor para que tu sejas uma das guardiãs do Novo Mundo que florirá breve e por isso gostaria de entregá-la em tuas mãos.
— Não achas que isso já é demais?
R. — Por que?
Eu soube que não permitiram que entrasse nas outras casas alegando elas serdes o escândalo da espécie humana, porém como eu procuro sempre fazer o bem aos seres por mais desprezíveis que sejam, permiti que adentrasse em meu recinto purificado, permiti que me presenteasse com essa raridade e ainda padeço em nome do amor os suplícios de sua visão horrenda. Assim pois, acha-te agraciado, não haverá no mundo bondade maior que essa concedida.
Ao sair, voltou para sua plantação e lá sentiu que pior do que lhe disseram, foi ele ainda ter insistido duas vezes depois da primeira facada. Portanto calou-se e tentou se conformar entregando oxigênio e amando suas plantas, inofensivas.
Mas Selma falou ainda com sua voz sempre ponderada:
S. — Rouxinol, viva sua Vida em Paz. Se tal conhecimento não está ao seu alcance, então é porque ele não lhe é útil.
Incrível como para ela tudo tem uma explicação cabível, mas repliquei:
R. — Estou pagando pelo que não fiz!
S. — Não diga isso. Ninguém paga pelo que não fez. Não conhece a Lei Divina do Karma?
R. — Como você pode ser tão fria? É nisso que se consiste a Evolução? A perca total dos sentimentos? Você acha que sendo um robô asceta estará melhor? Só estará melhor mesmo do que os que sofrem!
S. — Rouxinol, liberte-se do desejo. Todo o sofrimento provém dele.
R. — Não posso me libertar, pois sou o Próprio Sofrimento.
Aquela esfera kilométrica aos poucos se abriu e transformou-se em um deserto de areia movediça onde comecei a afundar. Desesperado, clamei por Selma para me socorrer ante aquele suplício latejante, mas ela iluminada como sempre, apenas se afastava lentamente de mim derramando lágrimas que se transformavam em Pérolas, mas nunca tocavam o chão. E enfim fui engolido e sufocado por esse esôfago do inferno.
Após ter descido intermináveis quilômetros, me vi em um local aparentemente muito familiar e aos poucos identifiquei exatamente onde encontrava pasmando-me com minha sensação familiar, pois estava… custou acreditar… em plenos anéis de Saturno, a dois bilhões de quilômetros da Terra, onde nada daquilo poderia estar acontecendo! Não deveria haver nem gravidade, nem calor, nem pressão para que eu pudesse estar ali como se na Terra. Além do mais, eu sabia que os anéis de Saturno são feitos de partículas de amônia congelada que flutuam em torno do planeta, no entanto eu andava lá firmemente como se fosse uma ponte inteiriça. E tudo era real demais para ser uma ilusão. Até os detalhes da atmosfera do planeta identifiquei confirmando minha localização.
Fascinado com aquele lugar, comecei a contornar o anel contemplando a suntuosidade celeste mesmo sabendo que demoraria para, a pé, percorrer os 800.000 quilômetros de anel à minha frente até voltar ao ponto de Partida. Lembrei-me de Deus supostamente presente em minha Vida, mas como Selma preferindo não dizer nada. Comecei a refletir sobre muitas coisas olhando a vastidão infindável de estrelas à minha volta: Minha insignificância e ao mesmo tempo aparente importância, afinal deram-se ao trabalho de transformar minha solidão compulsória num inferno em que nem Dante teria tanta imaginação para conceber; um Oceano de Agonia sem Fim.
Depois olhei para o globo de Saturno à minha esquerda; eu estava entrando em seu cone de sombra — a parte não iluminada temporariamente pelo Sol — e refleti sobre seu significado. Ele simboliza o destino e o tempo, tudo aquilo que é eterno para a ínfima existência humana. Será que ele guarda a resposta de minha cura? Então comecei a ouvir, como que de muito longe, parte da resposta cantada por uma daquelas crianças agora lembrada:
“Sendo infinita a evolução e esta só tocada no perdão, Não é a consciência das leis divinas que somente dará a Salvação!”.
Uma escada de gelo foi surgindo na minha frente e descia de onde eu estava até a superfície quilômetros abaixo dos anéis. A escada era tão longa que nem mesmo metade dela eu conseguia visualizar e muito abaixo penetrava nas nuvens coloridas da atmosfera saturnina descendo ainda muito mais.
Intuição, coragem, medo, curiosidade e razão me fizeram descer por ela e a medida em que eu ia descendo cada degrau, o anterior derretia-se. Eu tive medo de correr para não quebrar a escada, mas também se parasse ou andasse muito devagar, o degrau onde eu estava poderia derreter. Passei por entre as turbulentas nuvens e em minha caminhada para o chão fui divisando o local onde escada terminava. Após horas de descida o céu foi desaparecendo tomado pelo arco-íris que nunca tocava o chão em ponto algum, como as lágrimas de Selma. Pelo senso comum era difícil acreditar que todas aquelas toneladas de gelo estavam pairando sob o céu pintado com nuvens multicoloridas de metano e amônia.
Ao chegar na gélida superfície lisa como uma pista de patinação, avistei ao meu redor construções geometricamente perfeitas. Parecia que a matemática se fazia presente em equilíbrio ideal. Parábolas e hipérboles tridimensionais interpenetravam-se em cones e esferas formando um mundo geométrico. Lá não havia mais ninguém, mas dava a impressão que um povo antigo fôra quem deixou aquelas ruínas, se é que se pode dizer aquilo tudo eram ruínas; talvez um sítio arqueológico com seus padrões e estilos bem definidos, mas não conhecidos na Terra.
Senti uma voracidade muito grande em querer pesquisar tudo ali. Não importei com quanto tempo iria demorar, mas tinha sede de descobrir. Assim fiz cálculos, medições, observações, levantei hipóteses, fiz experiências, equações… poderia viver ali só descobrindo as leis que regem os padrões das formas gráficas inteligíveis por qualquer cientista de formação standart. Tão cedo não se esgotaria matéria para estudo, pois em um só objeto, quanto mais eu me aprofundava, mais havia mistérios a se desvendar.
Não sei quanto tempo depois, parei e me vi em meio às pilhas de papel nos quais rascunhei meus intermináveis cálculos. Olhei a calculadora, os gráficos, as tabelas e todo aquele amontoado amorfo de números e mais uma vez a angústia tomou conta de mim. Nada daquilo me deixava verdadeiramente Feliz. Nenhuma das descobertas fabulosas que fiz realmente me tirou das profundezas da Infelicidade Absoluta ou pelo menos me deixou menos triste. E vi escrito em uma pirâmide de Estanho em etrusco (não sei como traduzi) minha conclusão final agora não mais cantada nos doces versos daquela criança outrora lembrada nos anéis de Saturno, porém estampada no frio metal:
“Sendo infinita a Evolução e esta só tocada no Amor, então de uma vez nos convençamos que o auto-engano não nos livrará do tormento do quê nos para sempre amamos”.
Um vento forte começou a soprar naquele deserto gelado e eu ainda olhando para a pirâmide me deixei levar pelo vento agora ciclópico. Talvez a Morte definitiva do Ser seja a Não-Existência — eis a minha única chance e assim não seria possível que eu ainda seja de novo acusado de suicídio!
Consideracöes acerca do capítulo 2
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