Desmaiei no interior do tornado e só dei por mim quando estava num local completamente diferente que não era com certeza Saturno. O céu maravilhosamente azul e o chão irregular me eram muito mais familiares. À minha frente estava, como sempre iluminada e maravilhosa, Selma com suas roupas luminescentes. Eu estava vestido de branco e azul, nossas cores preferidas.
S. — Rouxinol, onde você esteve? Custei para achar você.
R. — Você me procurando?
S. — Estou muito preocupada. Você não está bem.
R. — Nunca estive.
Então ouviu-se o cantar das crianças; elas deviam estar por ali. Olhei e vi seis delas andando eqüidistantes uma da outra em círculo. No meio havia uma espécie de quiosque ou altar coberto com colunas de mármore branco enrolado com angélicas e trepadeiras, nele havia um ataúde de Cristal com uma criança dentro. Ela estava sangrando muito e suas roupas brancas contrastavam com o vermelho sanguíneo que escorria de sua face. Parecia que estava morrendo. As outras crianças cantavam, todavia via-se que estavam em pranto naquele estranho velório que contrastava ainda mais com o cenário alegre, natural e bucólico que denominei “O Inferno de Cortinas”.
Eu e Selma fomos nos aproximando para saber o que ocorreu e mais próximos ouvimos o que cantavam como se fosse uma canção de roda infantil:
“Ao longe, num jardim insulado e tranqüilo
ele vive sonhando neste estranho Mundo.
Digam por que ele não pôde ver o que fez
para que se transformassem suas lágrimas
em Oceanos de Agonia sem Fim?
“Enquanto eu ouvia e estremecia ante àquela música, Selma lia um epitáfio numa lápide de estanho perto do caixão onde repousava aquela frágil criatura moribunda zumbiforme”:
“Não chores por mim quando estiver morto, porque enquanto o lento sino soluçar dizendo ao mundo vil que enfim dele partido, entre vermes menos vis irei morar. Não te lembres se tu leres estas rimas da mão de quem as escreveu porque te adoro tanto que prefiro que da mente me suprimas se ao pensar em mim te amargurar o pranto. Se estas palavras leres algum dia quando a carne à argila estiver confundida, não murmures sequer meu nome sem valia, mas deixe meu Amor também findar com minha Vida”.
Sem saber o que dizer ante tanta tristeza, perguntei o que ocorrera àquela criança que aos olhos de qualquer um tinha tudo para ser feliz num lugar como aquele. Foi algum acidente? Ou um ser monstruoso teve sangue frio suficiente para causar-lhe este mal?
— As duas coisas são verdadeiras.
— Foi um acidente, pois nada disso deveria ocorrer. Realmente ela tinha tudo para ser feliz.
— O ser monstruoso foi simplesmente o fato dela existir, pois a condição de Ser é rótulo do qual não escapa nenhum ente.
— Não mais suportando sua existência erma de Amor, a custo, no limiar do sofrimento humano, subiu ao Local mais Alto e suplicando ao menos o Amor do Altíssimo em vão, jogou-se nas pedras pontiagudas que o “acaso” lhe reservou.
— Nenhum médico prometeu chance de curá-la. Talvez se tivesse “chance” de passar o resto de sua vida escassa e nefasta funcionando através de aparelhos…
Como “graças a Deus” não teve recursos para isso, pedimos o direito de Morrer para sempre e hoje louvamos a Deus por essa condescendência em lhe permitir a Não-Existência, pois poucos conseguiram tanta “misericórdia”.
Escorreram dos olhos de Selma algumas tristes pérolas. À medida que ia entrando no círculo me aproximando do ataúde, senti as dores horríveis que aquela Vida acumulou, como se fossem tantas que extrapolavam os limites de seu débil corpo. Não consegui me aproximar mais ante tanto sofrimento mental e emocional e assim me afastei. Selma nada dizia; apenas com os olhos fechados olhava tudo fixamente. E eu a disse:
R. — Selma, você conseguiu o que ninguém nunca suportaria tentar: você me livrou da morte prematura que esta criança teve. Não haverá eternidade que me faça esquecer de você.
Terminando a música, uma das crianças me chamou e pediu para que eu ouvisse o final da estória do vendedor de oxigênio (ou melhor, lembrasse!):
“E eis que o mundo passou a ter mais oxigênio e os domos foram retirados por serem agora desnecessários. Todos puderam vislumbrar o céu e o deserto enorme circundantes que no futuro poderia ser habitável.
Dentre os diversos pioneiros que ousaram atravessar o deserto levando as sementes, um encontrou um oásis magnífico onde um lago translúcido cintilava tranqüilidade ante as flores coloridas multiformes. Esse colonizador, designado para vasculhar as regiões inóspitas do planeta, ficou maravilhado com aquele Éden nunca antes visto em sua geração.
Ele se aproximou do oásis e lá exclamou:
— Olá! Tem alguém aí?
R. — Sim, quem está aí fora?
— Eu sou um pioneiro designado para percorrer a vastidão inóspita da Terra e levar as sementes produtoras de oxigênio promovendo assim a construção do Novo Mundo!
R. — Que bom saber disso. Esteja à vontade. Pegue bastante água e comida, pois adiante só haverão pedras e areia.
— Quem és tu, oh eremita, e por que vive aqui tão longe da civilização?
R. — Eu sou aquele a quem chamam de “A Forma Decadente”.
— Quem pronunciou designação tão vil?
R. — O mundo, pois afirmaram que minha aparência enoja os ratos, simboliza e encarna tudo o que há de tétrico. Todo o Sofrimento reside unicamente em minha existência e tudo o que mais abominam é por mim representado.
— Por favor, não digas isso. Tenho certeza que estás exagerando. Onde estás?
R. — Estou escondido para preservar tua mente de pesadelos.
— Como veio parar neste paraíso?
R. — Eu sempre morei aqui com essas plantas desde que as plantei há muitos anos e recolho o oxigênio para a população da cidade dos domos. Agora elas já podem povoar o mundo e garantir a Vida sem minha ajuda, pois não subsistirei por muito tempo.
— Então foste tu quem criou as plantas produtoras de oxigênio? Tu quem proporcionou que a Terra fosse de novo habitável? Tu quem deste a luz aos que antes viviam entre os domos? Não podes ser tão detestável! Tenho certeza!
R. — Tu tens muitas certezas, mas elas nem sempre são A Realidade. Olhes para mim e os olhos do mundo te dirão o que sou.
Ao vê-lo, o pioneiro sentiu um pavor cadavérico e uma repulsa muito grande, mas mesmo assim se conteve em piedade e falou:
— Tu não deves se fechar para a Vida. Deve haver alguém que te ame pelo que és.
R. — Mesmo que haja alguém que “ame” a deformidade, certamente não serei o “eleito”, pois como todos os outros eu seria “amado” apenas pela aparência.
— Tu também não podes ter tanta certeza se não houver tentado.
R. — O que sou é produto de minhas tentativas.
— Que tentativas?
R. — A primeira não admitiu que eu me aproximasse para que meu tormento não a contaminasse. A segunda permitiu que eu a visse, no entanto não poderia entrar em sua casa, pois os espelhos cristalinos multiplicariam minha agonia por toda a parte. A terceira permitiu que eu a visse e até entrasse em sua casa, mas não pude tocá-la, pois estaria profanando um ser humano perfeito o qual eu não sou digno, pois ela fôra criada para viver com outros igualmente perfeitos.
— Por que não continuou?
R. — Porque minha deformidade está somente na pele, meus sentimentos continuam tão fortes como o Sol e tão frágeis como as pétalas de minhas flores que murcham e apodrecem ante a rejeição. Quantas chicotadas deverei levar até que seja considerado digno de alguém como os que nunca provaram um ai?
— Não é possível que na Terra possa existir uma pessoa que não mereça um mínimo de afeto!
R. — Também acho, todavia não fui enquadrado nessa categoria, pois se fosse a população da Terra seria sempre ímpar.
— Pare!! Mais que sua aparência o que mais me revolta é o que dizes tão contundentemente. Estás esquecendo de Deus, não pode haver tanta injustiça!
R. — O esquecido não fui eu. E minha existência faz com que o mundo seja imperfeito. Fui condenado sem julgamento e sem crime.
— Por que não lutas de outras formas para mudar essa situação. Tu produziste oxigênio do dióxido de carbono, deve haver na medicina ou outra forma algo para que sejas uma pessoa tida como normal!
R. — A tecnologia e a medicina são muito avançadas, porém limitadas. Eu sou o limite. A vontade deles faz meu limite e eu não procurei sedativos, mas sim a Cura.
— Não…! Pare!! Não suporto o que dizes! Não posso conceber que caiba no Universo tanto sofrimento!
R. — Desculpe ter vislumbrado uma centelha de meu tormento, mas peço que te lembres de tua magnífica missão. Tu és o porta-voz da Vida, pois levará a terras mortas desde a Grande Guerra, as sementes de vida e no futuro tu e teus companheiros sereis lembrados e chamados como os semeadores do mundo. Agora vá e só pense em coisas boas. Não chores por causas perdidas. Lute pelas que têm solução como o transformar do Novo Mundo de um planeta semimorto pela poluição numa esfera verdejante de Vida. Isso sim, é possível!
— Será que não há nada que eu possa fazer por você?
R. — Eu gostaria que você ficasse com uma coisa muito preciosa e que tenho certeza que será bem cuidada por você. Há muito tempo, antes da destruição do mundo, haviam peixes animais e aves na Terra. Eu consegui encontrar a custo um casal de pássaros chamado rouxinóis e eles fizeram um ninho aqui. Como em breve não estarei mais presente, te peço que cuide deles pra mim apenas eventualmente vindo a esse oásis deixar bastante alpiste pra eles reproduzirem e espalharem-se pelo Novo Mundo.
— É uma honra para mim receber tal presente como foi também te conhecer. Prometo que farei isso. Peço para te fazer companhia neste oásis esta noite e amanhã cedo partirei para continuar minha jornada.
R. — Esteja à vontade.
Nesta Noite ele dormiu sem pesadelos e num sonho teve a visão de ser um rouxinol no alto de uma montanha cantando incessantemente. Ele vislumbrava um mundo lindo, brilhante e abundante em Vida. Ele então levantou vôo para alturas incomensuráveis até que o calor do Sol queimou suas asas, mas ele subiu ainda mais enquanto ia perdendo as penas até que não sobrou sequer nenhuma e se pôde ver que sob suas penas não havia nenhum corpo, mas somente seu Canto. Sim, Naquela Noite, não houve mais Pesadelos…”
Após a criança relatar o “final” da história, ficamos ali até a noite meditando sobre o que poderia ser a Salvação daquela alma quando antes tinha alguma chance. Quando tudo irremediavelmente escureceu, dormi, e ao acordar no meu de meus constantes pesadelos noturnos, não enxerguei nada naquela escuridão sufocante. Procurei por Selma e quanto mais verificava que ela não mais se encontrava por lá, mais eu ficava desesperado pela sua presente ausência. Ouvi mais uma vez o cantar das crianças não sei de onde, agora sim em tom bem mais fúnebre que infantil:
“Sendo infinita a Evolução e esta só tocada pela Dor, então condenados estamos todos nós a apodrecermos na Eterna Agonia.”
Consideracöes acerca do capítulo 3
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