Quando nasci não me deram nenhum “manual de instruções”. Como eu poderia adivinhar o que devo fazer para não sofrer os efeitos mortais da rejeição? Não sei o que fiz de “errado”: Como posso corrigir o que não errei? Não sei quais os defeitos verdadeiros que eles vêem em mim além dos que me imputaram irremediavelmente as experiências maquiavélicas da Vida preparadas para mim. Se nem os que me consideram perfeito me amam, como vou acreditar que pérolas no deserto valham alguma coisa? Sei que hão depois de me abominarem, pois logo saberão que apesar de um Sopro me Derrubar, como uma Palavra Mato.
O dia amanheceu lindo, como sempre, no Jardim sem Fim. De novo eu estava naquele bosque paradisíaco e caminhava entre árvores muito altas e frondosas. Distraí-me sem preocupações por estar ou não perdido; a essa altura não fazia muita diferença mesmo. Quando menos espero deparo-me a um portal de Estanho o qual guarnecia a entrada de uma maravilhosa casa no meio daquele pomar natural. Era um lugar muito confortável e convidativo. Fui em direção à casa sem me preocupar de estar invadindo o terreno alheio.
A porta estava aberta e na ampla sala havia um ambiente muito “mágico” que me chamou a atenção: era uma sala circular com um piso de mármore azul cercada, pela metade, por vitrais azuis do chão ao teto onde encimava um lustre de cristal azul e branco. No meio desta seleta circular reinava um lustroso piano de cauda branco com uma banqueta forrada de veludo escarlate. Parecia haver mais luz dentro da casa do que fora dela, embora tudo estivesse desligado.
Aproximei-me dessa sala de música acusticamente bem arrumada, sentei-me ao piano e sem sequer refletir se podia ou não comecei a executar uma a uma as músicas que sabia inundando toda a casa com aquele som quase celestial. Toquei tudo como quis, sem me preocupar com as exigências eruditas, soando assim melhor que qualquer outra forma antes tocada que me lembre. Horas depois, esgotado meu repertório de memória, parei respirando toda aquela beleza, transpirando toda aquela solidão, levantei e vi as crianças atrás de mim. Estavam me escutando há não sei quanto tempo. Eram cinco delas. Perguntei onde estiveram e que fim tomaram as outras quatro.
— Como te dissemos, cada uma de nós representa um lado seu.
— Aquela primeira que ouviu cantar lá no pântano, lá ficou, pois representa sua existência erma de Amor.
— Aquela outra que ouviu em Saturno, lá ficou, pois representa sua desilusão com o conhecimento que adquiriu achando que iria ser feliz com ele ou que poderia conduzi-lo a algum lugar melhor.
— Aquela que viu morrendo no Jardim é sua esperança em conseguir das pessoas algum afeto que substitua a ausência do Amor de Selma.
— Na Noite passada não viu a quarta criança porque ela simboliza sua negação de si próprio tentando ser diferente para sofrer menos e sua conseqüente decepção com o inevitável fracasso de qualquer método que venha a inventar para ser amado.
— Queremos agora te informar de nossos significados como símbolos das cinco experiências que ainda irá ter.
— Até agora o sofrimento que passou não foi nada, pois sabemos que você quando “vivo” passou por tudo isso dez mil vezes mais.
— Mas o que virá não será tão fácil. Sabemos apenas isso e pelo que falamos já sabe de nossos significados.
Perguntei de quem era aquela casa que tanto me identifiquei e eles responderam em coro:
— É sua!! Estava aqui sempre preparada para você. Não só esta casa mais tudo em volta: o bosque e este mundo são recompensa por tudo o que fez de bem!
R. — Mas que maravilha! Porém eu não fiz somente coisas boas. Sei que muitas vezes também fui ruim.
— Nós sabemos disso. E o “prêmio” pelo o que você possa ter supostamente feito de mal é que neste mundo não há mais ninguém além de você.
Depois paramos aquela conversa chata e fomos conhecer a casa
Realmente gostei muito dali. Era como se eu próprio a tivesse construído parte por parte. Tudo estava arrumado da forma em que mais me agradava: as cores, as divisões, etc. Na cozinha nos deliciamos com doces, pudins, sorvetes, todos os filos e subfilos de formas diferentes de chocolate e sucos quase implorando para serem deglutidos e me imaginei com apenas um órgão ao me deparar neste paraíso gastronômico: um estômago da cabeça aos pés do tanto que comi com gosto como se estivesse sem comer a milênios.
Pulamos na piscina, vasculhei a imensa biblioteca, o laboratório no porão e tudo aquilo que sempre imaginei ter na minha casa. Aquelas crianças eram minhas únicas companheiras porque eram eu próprio. Até que a Noite chegou e exaustos fomos dormir nos confortáveis quartos da casa. Assim foi o primeiro dia, o segundo, o terceiro, o décimo, o vigésimo. Um mês depois, a Lepra que eu carregava já Corroia o Coração.
Numa Noite igual às outras, estávamos na varanda olhando as estrelas quando senti uma felicidade muito grande. Sim, Selma estava por perto sem dúvida! Uma das estrelas mais brilhantes, Capella, foi aumentando seu brilho e aproximando-se de nós até atingir o chão suavemente transformando aquela Noite num Dia tão brilhante como outro ou até mais! Vimos Selma quando nossos olhos se acostumaram à claridade intensa! Antes que eu raciocinasse alguma coisa para saudá-la ela disse:
S. — Rouxinol, você irá agora descer aos mundos inferiores; não nos veremos mais. Lá você passará provas e descobrirá o que precisa saber. Mas lembre-se acima de tudo, de Deus e de sua Justiça Divina sempre. Por Jesus, não se desespere e você ao retomar o caminho doloroso da Evolução através dos braços espinhosos da Dor, voltará aos mundos Superiores e ao que te é mais Importante. Rezo por você, mas não sofra por minha causa; já basta a sua.
Com muito pavor fiquei então, pois Selma nunca pronunciara palavras tão fortes. A mensagem que viera me trazer continha então muito mais horrores que o que fôra por ela pronunciado. O céu foi ficando escuro em poucos segundos, nuvens turbulentas brigavam entre relâmpagos e trovões que rivalizavam com a Luz da Claridade de Selma que era agora a única fonte luminosa por perto. As crianças correram para a casa e uma tempestade titânica irrompeu-se vergando as árvores como se fossem capim. Quando fui entrar com Selma em casa, desistimos da idéia ao vermos a inutilidade desse ato, pois em nossa direção vinha uma onda megalópica que desistiria até Noé de construir um transatlântico.
A violência das águas foi tão grande que somente fechei os olhos e não quis ver mais nada. Encolhido, deixei-me rolar nos turbilhões aquáticos submerso não sei quanto tempo naquele tufão hiper diluviano…
Consideracöes acerca do capítulo 5
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