
Onde se passa a estória?
O Universo de Autokriptografia engloba os conceitos da teogonia Católica e Védica. O personagem relata em primeira pessoa suas impressões após a morte física, à medida que lembra de sua vida no plano físico. Utiliza-se, além dos termos típicos dessas teogonias como Karma, inferno, destino, Deus, termos cunhados pelo Espiritismo como Umbral, desencarnados, etc. Esse mundo, onde o personagem desenvolve sua saga, alude aos conceitos de “mundo espiritual” do kardecismo (minuciosamente descrito no Livro dos Espíritos de Allan Kardec) e sua trajetória ao encontrar reinos diferentes alude os círculos da Divina Comédia de Dante.
Na teogonia Védica, acima do plano físico existem mais seis planos de consciência. O plano em que se encontram os espíritos recém desencarnados, imediatamente acima do plano dito “Físico” (e logo abaixo do plano “Mental”) é denominado plano “Astral”. Este consiste numa réplica do Universo físico considerado real, porém imaterial cujas formas são projeções das lembranças e sentimentos dos seres que o habitam. Os seres que habitam este Plano encontram-se em diferentes níveis de consciência que se agrupam conforme suas afinidades. O níveis mais altos ou de maior “consciência espiritual” são descritos nos capítulos 2 e 8, enquanto que o mais baixo desenrola-se no último capítulo. Nos níveis intermediários encontrar-se-iam pessoas comuns do cotidiano.
Como entender Autokriptografia
A Mensagem do conto é escrita de forma que carrega 3 formas simultâneas de interpretação e que são mutuamente concordantes. Estas 3 formas podem ser entendidas como a forma:
- Literal: Uma história de amor no qual o espírito de um homem procura obcecadamente, no além pós-morte, sua amada, também já falecida. Entretanto, por encontrarem-se em níveis espirituais diferentes enfrenta diversas dificuldades para alcançá-la, tendo que percorrer os diversos níveis evolutivos do plano Astral, deparando com os seres que encontra em cada um deles. Nessa interpretação não é dada metáforas a não ser as abundantes comparações de situação que são feitas no texto. Somente essa forma de interpretação reduz a mensagem principal do conto aos percalços que carência de amor produz.
- Metafórica: Nessa interpretação, os símbolos adquirem significado psicológico e traduzem um significado emocional. Todos os discursos e situações vividas são, portanto, símbolos de um conteúdo afetivo e refletem como a realidade é sentida em detrimento de sua descrição. As metáforas encontram-se amplamente por todo o texto e são associadas a cada um dos personagens, níveis e palavras utilizadas. Muitas vezes são enfatizadas com iniciais maiúsculas para referenciar que o sentido é muito menos literal que simbólico.
- Cabalística: Indo além da interpretação metafórica e analisando os símbolos utilizados para as mesmas, depara-se enfim com a linguagem CRIPTOGRÁFICA ou codificada, que é o cerne mais profundo da mensagem do texto. Diversas palavras que muitas vezes são usados ora em metáforas, ora em descrições, engendram o chamado significado “cabalístico” – um significado oculto que amplia a mensagem literal e psicológica levando à uma questão metafísica na qual são debatidos conceitos como Verdade Absoluta, Infelicidade Absoluta, Consciência e Inconsciência.
Palavras Cabalísticas
Uma palavra ou frase é considerada cabalística quando encerra um significado oculto pela soma e combinação de suas letras, adotando-se que cada letra corresponda a um número e este a um significado. É incessantemente pretendido que ocorra concordância entre o significado literal (aquilo que é efetivamente lido) e o significado cabalístico ao longo de todo o texto, invocando-se uma ressonância da mensagem mais profunda.
Portanto existem no texto determinadas palavras que evocam o conteúdo cabalístico através do símbolo, ainda que sejam usadas em diferentes contextos ou significados literais. Cada uma delas relaciona-se por sua vez com um significado psicológico. Nesses pontos onde há a intersecção dos significados, a palavra cabalística está com inicial maiúscula. Exemplos: Lago, Estanho, Gelo, Escada…
Para entender melhor, veja a explicação sobre o título da obra.
Os paradoxos
Quando as 3 formas de interpretação são conhecidas e harmonizadas entre si, surge o paradoxo-tema: Uma vez que o ser tome consciência de sua condição, de seus limites e de todos os fatores que tornam seu ambiente mortífero, ele se afastaria cada vez mais da condição de “felicidade”. Assim como, inversamente, quanto menos consciência ele tivesse de seu estado de degradação moral, espiritual ou qualquer outro, ele teria capacidade de sentir-se ou ser “feliz”, por ignorância. Isso contradiria as teogonias onde o estado de “felicidade plena” é alcançado dentro da consciência.
É ainda levantado se a felicidade ou infelicidade teria ou não um “limite” para o ser humano seja ele encarnado ou não (a Infelicidade Absoluta). Esse debate filosófico é mais evidenciado no desenrolar das 7 torturas do último capítulo, onde o personagem demonstra que, a partir de um certo “grau” de sofrimento, nada mais que se inflija sente-se pior ou causa maior infelicidade. Isso tem direta correspondência com a limitação dos sentidos humanos, seja na visão, audição, etc. Em termos concretos: uma pessoa queimada a 10.000°C não sofre mais que uma queimada a 2.000°C. Em ambos os casos os limites humanos de dor física foram extrapolados e isso ocorreria analogamente em termos psíquicos.
A mensagem de Autokriptografia
Assim como em todos os textos escritos de forma simbólica, a mensagem principal é sujeita a muitas interpretações, porém muitas delas são igualmente válidas se forem concordantes entre si. São aspectos diferentes da mesma realidade. Em suma, a estória trata sobre a evolução do ser, suas dificuldades face ao maior de todos os obstáculos e ao seu seguimento: a carência (seja de conhecimento, amor, afeto, nutrientes, realização, etc.). Fica assim lançado ao leitor a reflexão da mensagem, uma vez resolvido o paradoxo-tema, pois (apesar de toda linguagem simbólico-religiosa utilizada), seja qual for a posição ideo-filosófica ou religiosa, trata-se de um assunto intrínseco ao ser humano.
Texto original que serviu como base para a elaboração da peça:
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