Dedicado à Drª Mª José Wendling, sem a qual nada seria feito.
“Será um sonho? Ou agora sim, acordei para a realidade? Estou me lembrando aos poucos de tudo… Sim! Agora sei que estou Morto!“
Aos poucos tudo ficou iluminado e me vi em um maravilhoso jardim onde ao longe avistei nove crianças muito parecidas umas com as outras como gêmeos brincando num parque. Depois notei que eram todas muito parecidas comigo em diversas fases de minha vida. Lembrei-me, outrossim, que sequer poderia acreditar que morri, pois sei que a Vida é Eterna, até para as experiências fracassadas da Natureza.
Então, naquele imenso e lindo jardim sem horizontes, as crianças vieram ao meu encontro borbulhantes de alegria. Algumas até derramando lágrimas em êxtase ante aquela felicidade supra-humana. Elas se dispuseram à minha volta observando-me e sentindo-me com a intuição, surpresas com minha demora em entender o que ali ocorria ou como fui tão de repente parar em tal local. Assim perguntei:
R. — O que está acontecendo?
O Jardim era um recanto iluminado e colorido pela vegetação transpirante de saúde e pureza. Uma brisa suave sempre passava isometrizando a temperatura agradabilíssima. Uma Cascata inofensiva Caía por perto formando um Lago translúcido e cristalino, e um rio saindo deste lago percorria a vastidão interminável daquele Éden sem fronteiras. Ali era a Eternidade, porém não via ninguém mais ali além de nós. Cada criança por fim me respondeu:
— Nós somos o que você viveu, crescemos com o que você aprendeu e vivemos no que você acredita.
— Cada experiência, dúvida, conclusão e sentimento formou cada uma de nós.
— Nós somos sua alma personificada.
— Agora que você voltou, esperamos pela solução de nossas questões finais.
Intuindo o que queriam dizer, pois logicamente nada podia se concluir, falei:
R. — Desculpe se lhes causei algum mal, mas não foi minha culpa. O que agora posso fazer? Será que há alguma forma de remediar o… acidente que fui?
— Não precisa pedir desculpas a você mesmo, afinal sempre foi coerente com o que pensou e fez.
R. — O que me sucederá? Existe Céu? Estou nele ou irei ao purgatório, umbral, inferno, maya ou sei lá o quê?
— Pra lugar nenhum.
— Este lugar só existe em você!
R. — Como?! Não estou por acaso em algum lugar?
Como uma cortina que cai, aos poucos o ambiente foi se transformando. Flores murchavam e morriam às arrobas, o rio cristalino e translúcido enojou ratos. Um calafrio ósseo fez com que até o sistema linfático arrepiasse ante a nova paisagem que despontava. Árvores contorcidas com suas raízes falangeadas decoravam o pântano lúgubre, sombrio e medonho sob um céu roxo. Não mais suportando o Silêncio Ensurdecedor exclamei:
R. — Por que viemos para cá?
— Nós nunca na verdade saímos daqui!
Quando olhei para as crianças, elas estavam sujas e tristes, peneirando suas apagadas belezas. Os olhos aguados não conseguiam mais chorar. Ali ficamos todos juntos para tentar diminuir o medo crescente causado por tanta desolação.
Muito tempo se passou e a tristeza nos cobriu de desespero e o desespero já começava a nos levar à total insanidade emocional quando uma delas achou que já era hora de lembrar-me do que ocorreu antes de eu despertar:
— “Houve um tempo em que toda a Terra era envolta nas névoas da poluição e que os seres viviam em domos protetores sobrevivendo a custa do pouco oxigênio restante. A tecnologia muito avançada combinada com a medicina capacitou a criação de seres fisicamente perfeitos e imune a todas as doenças conhecidas.
Um dos que lá nasceu, conheceu desde a infância este mundo, e o horror erguido o motivou a dedicar sua vida por melhorá-lo. A princípio gostava de cuidar de plantas, flores e cogumelos cultivando-as dentro dos domos protetores causando raiva a muitos por acreditarem ser desperdício de oxigênio precioso. Foi chamado de lunático e isolado por todos por suas idéias sem finalidades práticas como tentar plantar a terra quase que completamente árida, estéril e morta.
Mesmo assim conseguiu continuar cultivando flores em sua casa até que um dia em completa solidão, desistiu de viver. E com uma injeção de um ácido letal resolveu por fim ao sofrimento que era sua própria existência. Contudo, eis que enquanto o lento líquido ia penetrando em suas veias, ele vislumbrou suas plantas mortas no futuro sem ninguém para cuidá-las. Ele já havia plantado tantas que em poucos minutos todo aquele trabalho já seria em vão. O horror desta visão foi tanto que o interrompeu a aplicação e apenas metade do líquido havia penetrado causando-lhe não a morte física, mas somente um desmaio.”
Naquele ponto da história ela interrompeu e as outras, com suas vozes angelicamente afinadas, olhando fixamente para o Nada, cantaram lentamente uma canção de “Ninar”:
“Fria Noite de Luar
Nasce nela mais um Ser.
Pelo o que ele Vê na Vida
Chora em seu nascer…
Vem Criança para o Mar
De torturas se afogar,
Mas Não abras os teus Olhos:
Não suportarás!
Eis que então ele Cresce
e como todos sofreu, assim,
O que a Vida todos guarda
Sempre e até o Fim!
Ao se estar na Inconsciência
Não se pode Ouvir a Dor
Que permeia a todos os entes
Que povoam a Vida contentes
Sem Querer Enxergar Mais.
Mas ele não pôde Fugir
De sua condenação:
Viverás no fundo da alma
Todo o Peso o qual te aguarda
E nunca livrar-se-á!
E tornou-se aos poucos
Mais frio e indiferente
Com o Açoite e Espinhos
Que lhe deram de Presentes.
E seu Sangue escoava
Vindo em forma de Lágrimas,
Seu Silêncio entoava
Uma Sinfonia de Amor.
Não Serás nunca amado como alguém
E ninguém por ti poderá fazer
Algo que o inspire o Dom de Viver,
Pois a Paz, Só terás
Mesmo assim talvez,
Ao Morrer…!
Consideracöes acerca do capítulo 1
Deixe um comentário