A U T O K R I P T O G R A F I A


Capítulo 4

   Não consegui mais dormir apesar de estar muito cansado e com Frio. Estava também com medo de sair de lá. Também estava com muito mais medo de ficar ali só. Levantei-me e fui na direção onde tinha visto Selma pela última vez. Muito longe vi uma luz. Será Selma? Corri, mas ao me aproximar, frustrei-me, pois era somente a luz de uma espécie de bar cheio de gente que eu não conhecia que ria, bebia e falava alto. Parecia que se reuniam sempre ali. Senti neles uma clara futilidade ao conversarem tanta banalidade, mas me atraíam de alguma forma. As mulheres faziam seus charmes para rapazes pedantes e metidos a Xeique de haréns. Era um ambiente pra mim deprimente, entretanto entrei lá porque era o único lugar onde parecia Haver e também porque lá fora estava muito Frio.

         Procurei ser impercebido sentando-me num canto discreto como se estivesse esperando alguém. Notei que algumas pessoas também me olhavam discretamente. Aquelas pessoas pareciam felizes mesmo na inconsciência de suas vidas e realmente eram em comparação a mim, afinal minha consciência levou-me à Infelicidade Absoluta. O que eu deveria fazer para ao menos me parecer com eles?

         Como se não quisesse nada, uma mulher se aproximou perguntando o quê eu queria beber. Perguntei se tinha água. Ela estranhou, mas trouxe (todos ingeriam bebidas alcoólicas). Depois procurei me aproximar da concentração falante como apenas um espectador, na esperança de sentir alguma coisa boa daquele lugar mesmo intuindo a pobreza espiritual do ambiente e das pessoas circundantes.

        Eles contavam casos e outras frivolidades destituídas de qualquer substância aproveitável. Um deles se virou e me perguntou se eu concordava com algo que ele falou e eu não escutara direito. Sem saber o que dizer contornei enrolando palavras. Ele não entendendo minha resposta continuou a tagarelar como os outros o amalgamado fonético estéril corrente. Pensei entre os meus neurônios: “Bem, as duas primeiras tentativas não deram em nada. O que devo fazer? Devo tentar algo mais direto? Fico quieto? Será que eles são hostis? Já ouvi um lá atrás levantar a voz com raiva de alguma coisa!”

         O pior é que eu sequer saberia o que falar, pois eu não tinha nada a acrescentar ligado àqueles assuntos devido à minha total ignorância prática psico-sociológica. Por acaso vi de novo a mesma mulher que tinha me servido conversando com outras pessoas. Parecia que era bastante extrovertida. Numa hora ela me viu observando-a, mas voltou ao que estava fazendo.

         Com muito medo de sua reação, aproximei-me dela aos poucos de mesa em mesa. Parecia um caminho interminável apesar dela estar apenas do outro lado do recinto mais ou menos amplo. Outro bom tempo se passou quando cheguei o mais perto possível para que minhas defesas funcionassem com razoável eficácia até que eu articulasse algo para chamar a atenção dela. Vi que ela enxugava copos e perguntei se ela não queria ajuda. Ela me olhou (suei litros de medo sem nada demonstrar) e apenas sorrindo educadamente disse que não precisava, pois já estava terminando. Ainda eu com forças de reserva tentei algo mais arriscado, nem sei porque brincava assim com o perigo. Seria algum resíduo de esperança?

        R. — Como você se chama?

        Ela me olhou avaliando a pergunta e indagando a intenção respondeu:

        — Meu nome é Ana Alice.

        R. — Você trabalha aqui? (Nossa, que pergunta imbecil!!)

Sim, trabalho.

         Vi que as respostas não vinham com muita boa vontade portanto parei para não sofrer além da cota diária, mas fiquei ali num canto pensando nela e como seria feliz se pudesse ter alguns momentos de sua atenção como qualquer um tinha. Mas ela parecia muito requisitada e não gostava realmente de mim, o que não é nenhuma descoberta espetacular. Observei as pessoas com quem ela mais gostava de ficar e vi que dificilmente conseguiria imitá-las, pois eu as considerava vazias, ruins, sem caráter, machistas, preconceituosas e inescrupulosamente oportunistas por tudo o que demonstravam. Será que para Ana Alice aquilo tudo eram qualidades? Até fisicamente seria ainda mais difícil tentar igualá-las, pois eram altas, fortes, robustas e confiantes inspirando o conceito social de saúde, tudo ao contrário de mim. Não haveria plástica suficiente que me desse a oportunidade de ser feliz com ela uma vez que só a aparência era o que importava a todos ali. Nada podia, então, eu fazer para atraí-la.

         Um daqueles espécimes sentou-se ao meu lado com um jornal e poucos minutos depois comentou um fato que leu. Sem dar muita importância confirmei. Então ele perguntou algo e vi que era uma questão de cunho religioso (para o meu espanto). Se existir – disse ele mais ou menos — um número limitado de entes, (que este era um mundo espiritual não era mais questão para eles) como a população crescente manterá esse número finito? Ou os espíritos multiplicam-se com os nascimentos? Respondi a ele que:

                Se você levar em conta que todos os seres não nascem ao mesmo tempo e sim uma pequena parte da totalidade existente, verá que o número de mortes é suficiente para que sempre se renove a vida na Terra. À medida que novos iam nascendo para a vida corpórea, a percentagem de espíritos encarnados ia aumentando, mas a de desencarnados, com um estoque muito grande diminui lentamente, pois regressam à espiritualidade todos os desencarnados sejam em que nível estiver.

         Comecei então a falar muita coisa do que li e achei, e ele foi se interessando e perguntando outras coisas ampliando o assunto. Estendi-me também falando da espiritualidade em geral e da Vida como uma forma de energia. Depois fomos à metafísica (se é que já não estávamos nela), completamos com uma espécie de psicologia espiritual. Meditando sua determinância passamos à determinância científica em geral e seus limites. O assunto foi se estendendo indefinidamente e aos poucos, à nossa volta diversos ouvintes foram se ajuntando e juntando um ou outro problema que tentamos situar e resolvê-lo em seu devido contexto ao menos teoricamente. A essa hora todos já estavam à minha volta me ouvindo e, por incrível que pareça, interessados! enveredamos por diversos assuntos na medida do que sabíamos até que enfim fiquei ao menos conhecido no grupo. Assim me senti mais à vontade e tranqüilo por saber que as coisas que eu gosto não são exclusividade minha. Meu gosto não é uma aberração da natureza e minha forma ainda não está em total estado de decadência a ponto de impedir uma aproximação ao menos inicial.

        Um tempo depois vi Ana Alice passando e a segui. Ela foi para a varanda fumar um cigarro. Aos poucos me aproximei reunindo todas as minhas reservas de coragem para falar:

        R. — Por que está aqui sozinha?

        — Pra descansar os ouvidos. Lá dentro está muito barulho. Você é uma pessoa muito inteligente. Sabe tantas coisas.

        R. — E você é uma pessoa muito querida, pois se preocupa com o bem estar de todos!

        — Bem, agora vou voltar, aqui está ficando muito frio.

Se eu perdesse aquela chance, talvez não houvesse mais outra, precisava fazer alguma coisa. Então falei:

        R. — Ana Alice, um momento…

        — O que foi?

        R. — É… queria te dizer uma coisa muito importante!

        — O quê, menino?

        R. — Espero que não se ofenda por eu ser sincero!

        — Nossa, quanto mistério!

        R. — Bem…  queria dizer que… eu gosto de você!

        — Hã? Bem, obrigada, você também é muito simpático; agora com licença.

        R. — Ana Alice! O que eu quero dizer é que eu amo você e queria saber se é possível você também me amar!

        — O quê!?! Há, há, há… Você acha que eu sou o quê? Você não tem espelho não? Imagine se eu vou me rebaixar ao nível de ficar com qualquer um! O quê você é? O quê você tem? Nada!! E olhe que nem conheço seus defeitos! Gente! Venham ouvir essa!! Além do mais, eu já tenho “namorados”.

         Concluiu ela cuspindo-me. Pensei: “O que fiz?? Por que ela fez esse escândalo? Por que tanta humilhação? “Em minha volta só ouvi risos de escárnio e comentários maldosos dos que me apontavam. Senti-me de novo o verme mais nojento do mundo. Lembrei-me da famosa máxima: “As mãos que afagam são as mesmas que apedrejam”. Eles riam de mim jogando na minha cara a felicidade que possuíam por cada um não ser igual a mim. Os casais beijavam-se e gargalham, divertiam-se de minha queda comentando como eu era execrável com minhas intenções amorosas.

         Não suportando mais um segundo, corri dali derrubando tudo o que estava na minha frente e mergulhei na Densa Escuridão que a Tudo Permeava até que não mais ouvi em meu Tormento as gargalhadas da turba juvenil. Mais uma vez confirmou-se minha sina. Por que continuo tentando? 

Consideracöes acerca do capítulo 4 

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