A U T O K R I P T O G R A F I A


Capítulo 6

   Mais uma vez me perguntei ao abrir os olhos: “Onde estou agora?” A primeira coisa que vi foi uma das crianças que veio comigo ainda desmaiada do meu lado. Estávamos sobre uma superfície plana, rochosa e molhada no interior, parecia, de uma imensa caverna. Pelas paredes havia muitas tochas que iluminavam o ambiente e o teto era muito alto. Lá em cima decoravam estalactites.

         Levantei-me devagar, me sentir doer até os canais semi-circulares do ouvido. Ao verificar conectas todas as minhas extensões corporais, fui até o menino ver como ele estava e tentei acordá-lo. Como quem sai dos destroços de uma batida de jamantas ele se levanta, olha o local interrogativamente e me indaga. Com o mesmo olhar eu respondo:

R. — Não tenho a mínima idéia de onde estamos.

         Um pouco mais longe, onde estava mais molhado, vi um lago, mas percebi que não era um lago comum: Nós estávamos na verdade submersos. Toda a caverna estava debaixo d’água, mas retinha aquele ar que impedia a invasão das águas. Qual profundidade estávamos? Eis uma coisa que só saberíamos se arriscássemos sair pela entrada inundada e por hoje chega de água! Assim resolvemos procurar outra saída, talvez subindo. Já me molhei bastante por hoje.

         Fomos caminhando seguindo as tochas na parede até chegarmos a um abismo muito profundo e que não víamos onde terminava. Do outro lado havia uma cidade murada ligada por pontes. Havia uma delas que atravessava o abismo. Isso tudo dentro dessa grande caverna que cabia tudo!

         Atravessamos a ponte olhando para todos os lados a procura dos habitantes. Ao chegarmos nos portões da cidade entreabertos vimos construções góticas, igrejas e templos medievais. Parecia uma cidade com função eminentemente religiosa. Uma grande praça se estendia à nossa frente. De repente parei ao ouvir o sino de uma alta torre ribombar 7 vezes. As luzes das casas se acenderam. Ouvi barulho de pessoas falando e as portas se abrindo. Do templo principal saiu um velho com roupas ritualísticas ao qual reverenciaram. Junto dele dois adolescentes o assistia. A um sinal toda a população parou e essa espécie de líder espiritual falou em tom grave e sonoro:

— Quem são vocês que entram na cidade de Gogam?

        Antes que eu respondesse algo o menino falou:

— Somos de fora, da superfície deste mundo e fomos trazidos à essa caverna por um tufão.

         Houve um zum-zum-zum geral entre a população e o sacerdote olhou-nos com interrogativa maior.

— O quê?!? Vocês estão loucos? Do quê estão falando? Digam a verdade e não ousem mentir diante do templo sagrado da Cidade de Gogam!

R. — Falamos a Verdade. Não somos daqui como sabem. Morri a pouco tempo e quando era vivo, vivi na Terra.

           Os fiéis ficaram escandalizados com minha declaração. Parecia que eles não sabiam que não estavam mais encarnados e que tudo aquilo era um mundo espiritual copiado das lembranças do material. Morreram, porém ainda acham que não. Ele disse:

— Tragam esses blasfemos!

        A população nos cercou e nos conduziu ao templo. Lá ele continuou:

        — A Lei não é muito complacente com a mentira. Não irei mais insistir na sua resposta.

— Meu senhor, por acaso por que mentiríamos? Sabe que não somos daqui. De onde supõe  que sejamos? Há outras cidades nesta caverna?

        Um dos jovens que estava sempre ao lado do velho disse:

— Gorgomestre, sem dúvida que não são de nossa cidade para falar o que disseram.

        Mas o velho replicou:

— Também devem estar mentindo dando a entender que existem outras cidades como se nós não soubéssemos que Gogam é a única cidade do mundo!

        Com essa afirmação intui (não foi muito difícil) que eles só conheciam este mundo subterrâneo e para eles somente nesta caverna consistia o Universo deles. Por isso não acreditavam no que nós falávamos. Assim contei:

        R. — Caro senhor, não sei se é de seu conhecimento, mas esta cidade não é a única. Além dessa caverna, que está a não sei que profundidade, existe o resto do mundo, o Universo que é infinitamente maior que aqui! Nós somos de lá fora e fomos tragados pra cá!

— Hereges! Blasfemos! Só podem estar loucos ou endemoniados! Só Mamom é infinito! Agora sei que são demônios enviados para nos tentar! Prendam eles!!      

Não adiantou eu falar mais nada. Fomos ao calabouço e lá procuramos pensar o que iríamos fazer.

R. — Será que eles vão nos torturar? precisamos provar-lhes que não somos demônios.

— Mas como? São mais cegos que qualquer fanático religioso!

R. — Se eu conseguir mais uma conversa com eles argumentarei melhor.

        Mais tarde os dois jovens assistentes do gorgomestre e alguns outros desceram ao calabouço em direção à nossa cela. E disse o primeiro:

— O gorgomestre nos mandou para por mais uma vez levar a Palavra Sagrada a vocês e libertá-los da condição de demônios e do jugo do mal ao aceitarem Mamom em vossos corações.

R. — Mamom? Importa-se de me dizer quem ou que é Mamom.

        Uma das bem vestidas senhoras que carregava alguns amuletos espantou-se:

— Vocês não sabem quem é Mamom?!? Mamom é o Ser Supremo. Magnificência Absoluta. Onipotência, Onipresença e Onisciência criadora de tudo e todos! Ele nos revelou através de sua Palavra Santa milenar as leis que devemos para sempre cumprir por sua vontade até que um dia ele nos leve para a eternidade: Cap. I, vers.1 do artigo 1°.

        Pensei comigo: “Ah, meu Deus, até aqui também tem disso! Pensei ter me livrado de uma vez por todas.”

R. — Quero dizer-lhe que nós não estamos mentindo. Não sei nada sobre essa palavra sagrada ou Mamom, apenas peço que acreditem em nós, pois falo pelo que Sei e não pelo que me disseram.

        Eles se reuniram num canto e vieram depois dizendo:

— Decidimos consultar a Palavra Sagrada e ela diz no cap.38, versículo 15 do artigo 8. no 3. parágrafo, alínea “b” do livro dos Gorgomestres: “Dai 3 chances aos que te pedem. Não 4 nem só duas, mas 3, por que 3 é o número de chances que devem ser dadas a quem vos pede. Assim, Mamom disse: dai 3 chances a quem vos pede, pois o número de chances que devem ser dadas é maior que duas e menor que quatro, portanto 3!”.

— Palavra da Salvação!

        Entoaram todos em estribilho uníssono.

R. — Então peço que ouçam: Só há essa cidade, não é?

— Sim, a única cidade do mundo é Gogam!

R. — Vocês sabem que nós não somos daqui e não podemos ter vindo do nada apenas, não é?

— Sim, têm de ter vindo de algum lugar.

R. — Por acaso o que acham que existe além das paredes desta caverna?

        Ficaram todos calados e olhando um para o outro em busca de uma resposta, procuraram no livro preto deles e não achando nada concluíram:

— Não sabemos. Certamente não existe nada e mesmo que exista não nos interessa, pois a Palavra de Mamom nada diz a respeito dessa particularidade.

— Glória a Mamom nas Profundezas Celestiais!!!

        Bradou uma fanática lá no fim do grupo.

R. — Então de onde acha que viemos?

— O gorgomestre disse que vocês são demônios que vieram para nos atormentar. Dissidentes de Mamom que tomam forma humana.

R. —  Muito bem, então já que querem se tapar completamente, vamos embora e não lhes atormentaremos mais, certo?

— Hã? Mas vocês não vão mais nos atormentar? A Palavra de Mamom diz: “Eis que serão atormentados por demônios e os demônios vos atormentarão, pois o tormento virá dos demônios e vós por eles sereis atormentados, porque os demônios…”

R. — Já ouvi, já ouvi! Não se preocupem que tenho mais o que fazer. Já tenho meus próprios tormentos pra me livrar. Só queremos ir embora.

        Eles abriram a cela sem entender direito nossa atitude e nos escoltaram até a praça da cidade. Lá estava havendo uma espécie de culto ao deus deles e todos estavam ajoelhados gritando:

— Oh Mamom, glorificamos o vosso nome. Louvado seja em todos os abismos do Universo!

        Uma linda jovem com roupas puritanas simples veio até mim e disse com muita simpatia:

— Rezei muito a Mamom pedindo sua Salvação e sei que Ele irá derramar seu sangue por vocês. Verão que depois deste encontro pessoal com Mamom suas vidas mudarão completamente!

R. — É… muito obrigado, imagino que seja isso mesmo.

— Você acredita em Mamom, não é?

        Eu podia simplesmente dizer sim e ainda me manter em atitude diplomática evitando tudo o que ocorrerá futuramente, mas cansei e disse:

R. — Desculpe, mas pra mim tudo isso é auto-sugestão que só tem valor para vocês. O que faz você acreditar que esse Mamom exista?

— Mas está escrito há milênios na Palavra Sagrada!

R. — O que faz você acreditar nela? Seu pai, sua mãe, o gorgomestre? Existem dúzias de livros igualmente milenares proclamantes de divindades em todas as cores e modelos. Você acredita nisso porque te fizeram acreditar. Assim a verdade de vocês se resumiu a essa caverna!

— Oh! Peço a Mamom que perdoe suas injúrias!

        Quando vi os olhos dela molhados, brilhantes como os de Selma, me arrependi do que falei. Ela podia passar sem aquilo. Se eu tivesse nascido lá, não seria tão fanático quanto eles? Talvez também poderia ser feliz. Assim como do Mamom deles não se ouvia um piu, Deus também permitiu toda aquela ignorância. Será por isso que a “Outra Palavra Sagrada” se refere ao deus dos vivos e não dos mortos? Felizes Inconscientes!

        Naquele momento, meio cambaleante, chegava aos portões da cidade de Gogam, outra das crianças sugadas pelo maremoto. O gorgomestre esbravejou:

— Eu sabia que eles iriam pedir reforços! A verdade agora se mostra mais que evidente. Segurem ele!

A multidão nos agarrou e eu apenas olhava aquela menina chorando por não ter conseguido me provar nada. A velha fanática consolou-a:

— Não chore, filha. Mamom sabe que você fez sua parte tentando ajudá-los. Sua salvação já está garantida.

        O gorgomestre enfim decreta sua sentença:

— Vocês serão queimados!

A velha fanática com terços na mão, freneticamente olhava para a fogueira a qual estávamos sendo conduzidos e gritava com um sorriso macabro:

— Oh Mamom, pai benévolo, cuja casa tem muitas moradas e destinadas a poucos escolhidos. Vós, ímpios, não estás entre os eleitos!

— Glória a Mamom nas alturas abissais!

        Era o refrão dos fiéis.

— Oh, Mamom, pai de justiça perfeita que vinga os descendentes dos pecadores até a centésima geração. Tu, blasfemo, não estás entre os eleitos!

— Louvado seja Mamom nas Paredes e no Teto do Universo!

— Oh Mamom, pai santo e misericordioso que esmaga em seus dentes pontiagudos os inimigos incrédulos de sua bondade! Vós, tentadores do Mal, Não estás entre os Eleitos!!!

        E o gorgomestre grasnou em tom gravíssimo:

— Aleluia a Mamom nas Profundezas Celestiais!!!

Consideracöes acerca do capítulo 6

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