A U T O K R I P T O G R A F I A


Capítulo 7

     Bastou que acendessem as fogueiras que o desespero chegou. Fomos amarrados em 3 cruzes de estanho e antes que as chamas me alcançassem bradei de forma que todos me escutassem. As crianças até se assustaram com minha “performance”:

R. — População da Cidade de Gogam! Aqui quem vos fala é: Mamom!!!

        Todos param e ouvem com atenção:

R. — Falo por meio deste profeta que vos enviei para lhes dar a Luz que precisam. Se os queimarem estarão também todos exterminados. Deixe que ele vos fale!

        Então voltei à minha voz normal e disse:

R. — Mamom me enviou para que, como profeta, eu completasse sua Palavra com a Revelação Final! Apaguem essas fogueiras!

        Quando eles haviam acendido as fogueiras eu raciocinara da seguinte forma: Aquele mundo não deveria estar totalmente submerso, pois senão o ar já deveria ter acabado em vista de ainda existir fogo para as tochas que me lembrei nas paredes da caverna, fogueiras, lâmpadas e oxigênio. Certamente não estávamos a uma profundidade totalmente submersa. Como a caverna era alta, ela devia estar perto da superfície, pois deveria haver alguma entrada de ar. Falei à multidão:

R. — Além do teto do mundo existe um outro Universo com mais condições de vos dar uma vida melhor. Dar-vos-ei finalmente a Salvação e a Vida Eterna!!!

        As pessoas começaram a fazer aquele auê e o gorgomestre no meio da multidão tentando contê-la, gritou:

— Não acreditem! Ele é o demônio!

        Eis a minha sina. Sempre pra uns sou um deus e pra outros demônio. Aproveitei e completei:

R. — Os que se opuserem à Salvação, não a terão!   

        Os mais ortodoxos não queriam acreditar, contudo a maioria, esperançosa e fanática, ouvindo o que sempre quis um dia ouvir, sequer ligou para o que o gorgomestre e os tradicionais diziam. Soltaram-nos e nos seguiram até a ponte onde um dos meninos teve a idéia de levar uma corda. Atravessamos o abismo com o gorgomestre tentando nos impedir, mas a multidão o empurrou no abismo gritando:

— Aquele que se opuser à Salvação, não a terá!   

            Procurei aquela moça, mas em meio àquele “rendé-vous” não a achei. Chegamos onde me vi pela primeira vez perto do lago e disse pro menino entrar e ver se há uma saída da caverna. Ele pulou na água e demorou. Era minha única chance, mas ele enfim voltou e trouxe nas mãos uma flor de Lótus provando que havia encontrado uma Saída  para a Luz. E ele confirmou:

— A única saída está a uns 20 metros por baixo d’água. Dá pra prender a respiração até lá.   

            Então falei à população massificada:

R. — A Vida Eterna nos espera, mas primeiro terás que nascer de novo! Por isso peço-vos um último instante de fé e coragem para  através desse túnel submerso emergir-vos na Salvação purificados!   

            Alguns olharam e ficaram com medo, mas um dos adolescentes ex-assistentes do gorgomestre se prontificou:

— Eu irei, com a graça de Mamom!

            Expliquei pra ele que eram 20 metros e nadando rápido seriam uns 15 segundos de respiração presa. Pedi ao menino que o guiasse até a saída e voltasse depois que lá amarrassem uma ponta da corda que já seria mais fácil para os outros achar o caminho, pois entre os que pleiteavam a “Salvação” estavam velhos, cegos, paralíticos, crianças pequenas e outras experiências divinas que não têm tanta facilidade na água. Um a um fomos levando para fora da caverna onde eles pela primeira vez naquela vida contemplaram a Luz e o Céu naturais.   

            Alguns ficaram com muito medo e desistiram voltando à cidade de Gogam dizendo que iriam morrer afogados se entrassem na água. Outros se recusaram a deixar os pertences e riquezas. Então por último achei aquela menina:

— Não posso ir! Não sei nadar!

R. — Não se preocupe, eu vou te ajudar!

— Não! Não vou conseguir prender a respiração por tanto tempo!

R. — Claro que vai! Venha, eu vou te levar a um Mundo mil vezes melhor que este onde você viveu!

— Não! Não sou digna de Mamom! Não tenho coragem nem tanta fé! Tenho medo de ir!

R. — Você já veio até aqui e não deve desistir agora!   

            Então puxei-a com toda minha escassa força através da corda estendida indo o mais rápido possível para o lado de fora e lá saímos por baixo de uma magnífica cachoeira no Jardim sem Fim onde devia estar em algum lugar minha casa. Em volta havia muitas flores de Lótus.   

            Todos estavam se encantando com aquele lugar mágico, a vastidão sem limites, os frutos deliciosos, os rios cristalinos, o verde e tudo mais. Os meninos eu nem mais via no meio daquela euforia jubilar dos “eleitos” e a menina que consegui trazer… Odiarei-me pro resto da existência, jazia inerte nos meus braços como a palavra de Mamom fazendo cumprir minha própria maldição:

“Aquele que se opuser à Salvação, não a terá!”   

        Quanta Dor senti! Tentei me matar, mas me seguraram. Gritei, enlouqueci! Meu Deus, por que tanto Sofrimento?

Consideracöes acerca do capítulo 7

Deixe um comentário