O Sofrimento passou a ser tanto que cada vez que acordava pensava que o dia anterior fôra um pesadelo. Duas outras crianças me acompanhavam pelas montanhas em que eu escalava nos Níveis Superiores fugindo de mim próprio. À noite acampamos. Estávamos perto do cume da montanha; já havíamos ultrapassado toda a Vegetação Densa e estávamos acima das Nuvens. Enquanto eu olhava a paisagem, os dois meninos foram dar uma volta por perto. Ainda não consegui saber nada sobre onde estava e por quê. Se era outro planeta, um mundo espiritual ou a Terra em outro tempo. Mas achei um local muito bonito e daqui a pouco chegam os meninos:
— Estamos em um local místico onde se pode ter contato com os espíritos muito acima do entendimento da espécie humana e podemos consultá-los. Se o sofrimento que vive tiver alguma causa ou solução, através deles poderemos saber o que fazer.
R. — Como iremos achá-los?
— Nós encontramos aquele quem Selma tem por mestre espiritual.
R. — O quê? Vocês…
— Sim, nós encontramos Paramahansa Yogananda!
Corri com eles em direção ao casebre onde se encontrava o Yogi, e após pedir seu conselho sentamos e ouvimos seu pronunciar:
— Rouxinol, espero que a revelação que farei te ajude em sua dolorosa mas necessária missão. Sabes que já encarnou e desencarnou inúmeras vezes entre os humanos e você tem evoluído em diversos sentidos. Entretanto a Evolução interrompe-se ante a repetição das mesmas atitudes de negação da própria vida e repetirão as circunstâncias geradoras como tem notado, até que você consiga evitar e superar este automalefício Kriptofílico. Seu Sofrimento não é maior do que a Felicidade à qual todos, e inclusive você, está eleito.
R. — O que é reservado para mim? Adiantaria eu suportar morrer naturalmente após o inferno em Vida? Creio em Deus, Faço o Bem, nada disso me garantiu o mínimo de Amor pelo qual lutei por toda a Existência.
— Tudo ocorre para te chamar à Vida, isso não é Amor?
R. — Os que me empurram para essa aparente vida são cúmplices de minha Morte.
Não mais ouvi o luminoso yogi, senti um vazio muito grande na alma, mas de repente outra voz bem mais familiar ecoou:
— Rouxinol, venha até mim! Eu te amo! Já sofreste tudo o que tinha de sofrer, agora sou tudo o que sempre quis!
Não é possível! Será que é verdade? Só ela sabe que a amo mais que tudo no Universo. Sim, era ela! Mas como, se ela disse que eu não a veria mais? Eu sem pensar uma vez sequer, fui até lá e me atirei ao seu encontro. Ouvi de longe o grito das crianças em vão tentando me alertar:
— Não é Selma! Não é Selma!
Queda dolorosa e interminável. A temperatura aumentava cada vez mais e abaixo de mim aguardava um violento furacão. Inumeráveis léguas já havia caído e haviam ainda muito mais, pois sequer via o chão. Senti que agora iria passar o que nenhum mártir jamais passara, o suplício de todo o Universo estava se focalizando em um ponto para meu tormento Final.
Rodei no furacão fervente agonizando e fui puxado pelo redemoinho ectoplásmico. Fui excretado pelo reto do mundo. Não há mais nada o que fazer, nem reza, nem invocação, nem remédios, nem ciência, nada! Estou irremediavelmente exterminado da Vida!
Consideracöes acerca do capítulo 8
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