50 graus era a temperatura ambiente. Eu estava sangrando em cima de umas rochas. O que mais falta para completar minha Existência Torturante?
“Existência Torturante? Apenas Começou, pois ainda não conheces as entranhas abissais onde gritos ululantes sempre ecoam nos abismos infernais! “Não vi que recitou poema tão macabro, só o chão se abrindo e através dele, enquanto caía, ouvi berros e gemidos horríveis anunciando a proximidade do temido e cultuado em todas as religiões, Inferno!
Seres magros e raquíticos contorciam-se num mar de Espinhos. Íngremes montanhas apontavam para um céu vermelho como sangue diabético. Celas podres enjaulavam criaturas outrora humanas estendendo esqueléticos braços em busca de inexistente ajuda. Uma chuva de lágrimas afogava os recém-nascidos nos berços. Rios de sangue irrigavam plantas carnívoras que se deliciavam de restos mortos e semimortos. Um lúgubre revérbero da Terra com seus sofrimentos “naturais” respectivos era decorado com toda espécie de tortura possível cujas vítimas caíam às arrobas nos tanques de lava e enxofre escaldantes. Neste inferno, agora sem cortinas, demônios passavam o ofício eterno de cozinheiros e açougueiros de gente obcecados pela destruição humana física e psíquica sob forma de monstros policéfalos que causam espanto só em serem, triturando os condenados com suas mandíbulas aidéticas pavorosamente mastigando-os e vomitando-os ainda vivos, pois não há mais, se é que um dia houve, Salvação pela Morte!!
Fui andando temerosamente por uma passagem flutuante entre os vapores circundantes na direção de uma grande gaiola coberta pendurada sobre um abismo e lá embaixo turbulências do magma incandescente deixavam-nos tontos naquela temperatura fotosférica em que cozinhávamos aos poucos.
Dentro da gaiola, muito longe de meu alcance, vi e ouvi o desespero das crianças. Todas as nove estavam lá extasiadas agarradas umas às outras cheias das marcas físicas e psíquicas do suplício que passaram. Gritei por Deus para nos socorrer, nada poderia eu fazer para salvá-los, assim como um tetraplégico nada pode fazer para subir uma escada por si só. Em meio àquela agonia psicótica eu já até perdia o controle de mim mesmo, pois seria capaz de arrancar com unhas e dentes as artérias e veias do pescoço de qualquer um que se aproximasse de maneira suspeita. Parece que eles já estavam delirando quando ouvi seu canto entoar como um coral de dez mil vozes por todas as escarpas do Inferno em estilo sinfônico:
“Aqui estamos nós, Produtos da Criação!
O Sonho da Esperança a muito se extinguiu.
Onipotência do Universo escutai nossa Oração:
Imploramo-vos a graça de deixar de Existir!
Miraculoso Ser, maravilhas vós obraste,
Porém somos teus filhos e eis o que nos reservaste.
Oh, Criador da Vida e da Morte!
Maravilhas Vós fizeste, mas nunca em nossa Sorte!
Quando olhei atrás de mim, vi aqueles fanáticos da cidade de Gogam se aproximando para me empurrarem no precipício gritando:
“Em vão foram teus feitos. Não estás entre os Eleitos!
Em vão foram teus feitos. Não estás entre os Eleitos!”
Um grito forte e rouco vindo de um trono de pedra atrás deles os fez parar. Não foi difícil identificar aquele quem no Céu chamam de Lúcifer e aqui Satanás!
— Esperei milênios por você e agora consegui através de seus próprios esforços: “Aquele que se opuser à Salvação, não a terá”; Não terá mais ninguém que te salve. Você se diz sofredor, não é? Acha que passa o pão-que-o-diabo-amassou? Pois aqui terá valer suas palavras com um tratamento especial como você sempre quis, concebido somente pra você.
Como se quisesse me ironizar, essa criatura nefasta levantou-se do trono e num baixo profundo cantou em altos brados a vã esperança de que sua “vitória” chegasse aos portais celestiais:
— Oh, Ser “Bendito”, de mim és Criador.
Se sou pai da mentira, da mentira és avô.
O Terror destas crianças será minha Mensagem
À Divina Onipresença que omite a Sua Parte.
“Sendo as crianças referidas, elas lá ainda tiveram forças para responder nos agudos vocais cantando, pois tudo o que estava acontecendo só se expressa melhor dessa forma:
— Oh, Ser Maldito, comprazes em nos dar Nós!
És tu o Renegado, mas estás “Melhor” que nós?
Como ele não poderia de forma alguma chegar à divindade para proclamar sua vitória em minha Vida, aquela velha fanática da cidade de Gogam lá presente com olhos muito vivos e profundos, esquálida e anêmica cantou também em tom irônico a forma com a qual pretendia fazer para que a mensagem chegasse aos distantes Reinos Superiores uma vez que só as crianças tinham pureza suficiente para lá ir:
“De suas Bocas eu farei Tinteiros,
As vossas Línguas serão Penas Molhadas,
Os teus Dentes servirão de Letras
E pelos Olhos Uivarão Cartas Lacradas!”
A resposta veio em coro operístico da Gaiola Infernal:
— Somos evidentes Testemunhas do Horror
Em que eternizamos em Louca e Lenta Histeria.
Mil Trilhões de Pupilas Lacrimejam minha Dor
Vivendo Cada Segundo os Tormentos da Eterna Agonia!
1. A um sinal, da lama surgem duas mulheres muito bonitas de mãos dadas, porém sentia-se que a beleza não passava da pele. Aproximando-se e ao virem em minha direção andando lentamente, passaram uma de cada lado me puxando para trás com muita delicadeza, e por mais esforços que eu fizesse para não ser derrubado não consegui e assim caí de costas numa placa de Estanho incandescente que não sei como não tinha visto antes, berrando tão alto que por pouco as montanhas também não desabaram. Não pude levantar, pois mais duas seguraram minhas pernas e as primeiras meus braços me deixando fritar naquela chapa ardente. A Dor, ultrapassando os limites incomensuráveis da esquizofrenia psicótica, não permitia que os simples neurônios de um mortal a contivesse, manifestando-se como convulsões cerebrais por choques de dez mil KW.
Olhando pra cima vi e ouvi pessoas subindo em montanhas muito pontiagudas carregando livros e mais livros e lá do alto precipitavam-se com eles esfarelando-se no chão pedregoso. Estrondou-se nas paredes malditas a voz da personificação do mal:
— Nesta chapa ardente agora diga o que é Dor!
As crianças responderam por mim em coro:
“Gritos, hinos malditos foram proscritos de meu Estupor.
Se nos deixa aqui queimando, são gotas em meu Oceano de Dor!”
2. O gorgomestre, também ali presente como não poderia deixar de ser, sugeriu:
— Em teus longos dias escolheste o caminho que foi complacente aos seres viventes, mas indecente a quem te criou. Eu vos peço, oh mestre das trevas, que o impeça de invocar o Nome daquele que tudo Pode, tudo Vê e em tudo Está!
Em atendimento ao seu pedido oportuno, uma criança de três anos veio correndo até mim como se quisesse me abraçar, mas parou ao me ver em tal estado perto de mim e cantou:
“Dorme criança angelical, em seu Silêncio Sepulcral,
Estarás aqui seguro em seu Túmulo de Cristal?
Sob as Trevas Abissais, Esquecido nos Umbrais
Proclamar aos Céus a Vida, deixar-te-ei jamais!”
Com um punhal incandescente de estanho me abraçou fincando-o nas minhas cordas vocais para apenas eu não mais falar nem gritar. E o Ser diabólico bramiu:
— Não falaste enquanto pôde nem denunciaste o que sofreu. Não é tido que o desabafo diminuiria o Peso que a Vida te deu?
Só mesmo as crianças puderam interceder por mim:
— Proclamar minha Existência Angustiante nunca me libertou nem libertará dos Tentáculos asfixiantes da Realidade que Sempre É e Está!
3. Uma outra mulher cem vezes mais bonita e por isso mesmo mais perigosa, se aproximou sensualmente: Era Ana Alice! Começou a beijar-me estendendo-se pelos meus braços, pernas, pescoço e tórax. Seu beijo havia deixado açúcar e mel em minha pele atraindo formigas vorazes aos milhares que iam dolorosa e lentamente me devorando. O ser abominável declamou:
— Como fugiste da Realidade! Tiveste beijos e afagos, carinhos e agrados e não os desprezaste?
Em vista de minha castrante Mudez as crianças enjauladas responderam:
— Estes beijos e agrados, carinhos e afagos nem sempre foram Reais. E os que foram, antes não fossem pelo que além veio Mais! Agradeço humildemente quem de mim se preocupou, mas palavras não alimentam o Etíope Desnutrido de Amor.
4. Senti o marchar de milhares de pessoas se aproximando, no entanto não as achava. Depois percebi que eram centopéias que estavam entrando em meus ouvidos e inflamando-os. Uma delas queimou meu ouvido direito me deixando surdo de lado. O “Príncipe” das trevas comentou:
— Você só ouve o que quer! Por que não repara no que seus dogmas e verdades preconcebidas não querem?
Minhas porta-vozes o responderam:
— Tudo o que sei, que vejo e que sinto não é Ilusão. A autoridade de criatura e cidadão do universo me bastou para que eu enxergue com os olhos que me foram dados, Pense com o cérebro que me imputaram, Mas Sentir com a Alma que sempre sou.
5. Depois me é apresentada uma cena horrível à minha frente: De uma sucessão de interminável de mulheres que nasciam e pariam, tiraram a última que nasceu e os fanáticos a amarraram na Cruz de Gelo, e era minha mãe. Pregaram-na com parafusos de Estanho, em seguida, entre os gritos flamejantes dela, atearam fogo! Meu Deus, liberte-nos! Salve ao menos quem nada tem a ver com isso. Não é possível ser justo tanto mal em minha Vida! O Eco dos Precipícios insistiu:
— Não feche os olhos tão cedo! Esqueceu-se o que fez por você sua mãe?
Então, para que eu mantivesse os olhos abertos para a carbonização de uma inocente, o gorgomestre cortou as pálpebras de meus olhos que passaram então a lacrimejar literalmente sangue vivo. As crianças horrorizadas gritaram:
— Do Suplício dos Inocentes eu também faço parte. Mas cuidem-se os culpados, pois farei justiça aos que irresponsavelmente me condenaram!
6. Duas mulheres sentaram-se junto de minhas mãos e começaram a comer minhas unhas descontroladamente, depois as peles, as carnes até chegar aos ossos. Meus brados de Dor ecoavam apenas dentro de mim. E a bestialidade perversa recomeçou:
— Seus valores não são independentes dos alheios? Que te importa o que os outros achem? Aparência enojante receias, porém não deves pagar no corpo o que fizeste na carne?
As crianças engaioladas responderam por minha estrangulante Mudez:
— Mesmo que tenham dito que de minha memória foram apagados os motivos de meus tormentos, Sei que o que passo é injusto, pois nem tu maldição do Universo, não conseguirias cometer crime tão vil que merecesse a pena de ter minha Vida. Todos sofrem, mas eu sofro porque Vejo e sei do meu Sofrimento. Todos Agonizam, mas eu agonizo porque Sinto e Sou a própria Agonia. Sinto o Universo lotado com meu Tormento. Se alguém mais descobrir a Infelicidade Absoluta, o Universo explodirá com o Furor da Consciência.
— Você então se acha especial? Só se contentará com o quê? Como intuiu não existe Amor como você quer e Só na Não-Existência deixarás de Sofrer! Assim rejubila-te, pois te aniquilarei com todos os sofrimentos que passou e passarás para que finalmente não mais Existas!!!
7. Num Ritual demoníaco, o gorgomestre abre uma caixinha num altar e tira um cálice no qual prepara um líquido alcoólico e ácido. Tremendo convulsivamente e sorrindo maquiavelicamente vai descendo o altar onde outros seres aterrorizantes iam vomitando e escarrando neste cálice. Um casal muito simpático de namorados se aproxima, cada um com uma seringa de Cristal com agulhas compridas de Estanho. Eles beijavam-se ardentemente. O rapaz e a moça encheram suas seringas com o conteúdo do cálice e vieram em minha direção. Ele injetou lentamente o líquido em meu braço direito e ela em meu braço esquerdo. O líquido ia se misturando em meu sangue espalhando minha Dor por todo e cada átomo do Inferno. Com sangue já escasso ouvi, além dos passos da centopéia no ouvido, as crianças:
— Não há o que faças nunca reproduzirá um sofrimento maior que minha Agonia Sem Fim. Nenhum Tormento Inconsciente equipara-se ou justifica o que me foi feito. O que almejo existe e já mostrei isso ao mundo. Eu ainda estou Vivo, e pior, ainda estou existindo! Pobre do Mundo! Não haverá Umbral ou paraíso que me joguem que me faça esquecer de minha irremediável condição! Anjo ou Demônio Pagará! Carne ou Espírito Pagará! Satisfeitos ficaram os criadores de minha Agonia e também os que podendo me libertar se omitiram. Farei enfim de meu Oceano um Maremoto para os que pensaram que estando em terra se livrariam do que fizeram e do que deixaram de fazer. Já que nisso a Vida se consiste, nisso se consistirá por toda a angustiante existência da Eternidade!
Antes que o outro ouvido também ficasse surdo, vi e ouvi o vermelho do céu se dissipar e todas as camadas de Nuvens se afastarem dando vez ao brilhante Azul Krístico. Ouvi as crianças cantando:
— Vós que ouves calada a aflição desses Sons, são rasgos de Dor da acerba e pungente Vida erma de Amor.
Céu ou Inferno não déle, expunge nem risca o Tormento de quem precisa apenas é viver “Em” e “Por” Ti.
As formigas alcançaram meus olhos e assim fiquei completamente cego não vendo as crianças se transformando em flores de Lótus e flutuando para fora das grades, pois eis que surge Selma em seu esplendor divino fulgurando sua beleza luminosa fazendo nascer flores nas crateras e nas rochas. O quê ela havia sentido de tudo isso? Será que estava indiferente ou até chegara a se incomodar um pouco? Isso pra mim era um mistério entre aquelas torturas que debalde tentaram reproduzir meu Sofrimento. Apenas ouvi como soro que entra num anêmico uma frase antes do último tímpano estourar juntamente com meus olhos hemolacrimejantes feridos:
— Rouxinol, Eu te Amo.
Como água que se esvai numa peneira, eu escorri por entre os poros daquele corpo triturado, se é que ainda havia algo pra se chamar de corpo. Aquela “simples” frase foi suficiente para que os seres algozes não pudessem impedir de me dirigir mesmo cego ao meu único objetivo. Não senti nenhuma Dor mais. Somente uma paz muito branda e leve.
Como hidrogênio na atmosfera ascendi lentamente a princípio, enquanto meu corpo lá embaixo ia se embolorando em segundos, decompondo-se e sendo devorado por Vermes e Escorpiões. Eu era apenas eu e nada mais. Saímos daquele mundo e subindo em velocidades cada vez mais vertiginosas ao lado da Sempre Amada Selma, só passei a enxergar quando estávamos passando por uma infindável corrente helicoidal desoxirribonucleiforme de anjos ascendendo, cujo eixo também formava uma espiral maior alcançando os níveis cada vez mais altos até dissolveremos em Luz Monádica, como uma Gota que cai no Oceano Divino e mesmo na Não-Existência propaga suas Ondas de Existência por todas as Infinitas Dimensões no Universo…!
O Rouxinol
Fim?
Consideracöes acerca do capítulo 9
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