
Nesta cena, Rouxinol apresenta-se ao Gorgomestre e explica-lhe que vem de fora da Cidade de Gogam. Esta afirmação e muitas outras são desconhecidas ou tidas como heréticas, mas através da razão e usando paralelos fáceis de compreender, Rouxinol tenta convencer o Gorgomestre e seu grupo de fanáticos que o que diz é real. O diálogo original encontra-se no capítulo 6 do manuscrito original.
Durante o diálogo é notório o grau de fanatismo em que a seita está imersa de forma que por fim Rouxinol desiste do diálogo e pede para ir em embora, porém o Gorgomestre decreta sua prisão acusando-o de ser um demônio enviado para desviar os fiéis.
Apesar de ser uma cena bastante óbvia de entendimento pelo diálogo dos personagens, há aqui um paralelo com ocorrido na Cidade dos Domos – a rejeição do protagonista pelas suas idéias tidas como subversivas. Antes da condenação oficial, é tocada a 11a ária onde Rouxinol exorta os fiéis a criticarem suas próprias crenças e revelar-lhes o mundo fora da Cidade de Gogam. Essa ária possui uma longa introdução com trompete antecedendo o 5° fragmento da Música-Mãe.
Ouçam! Eu vim em paz,
pois vi a Luz que atesto
fora do que se queira acreditar!
Existe um lugar que a noite tem um fim,
Quando o Sol refulgirá e assim
queimar falsas sombras enfim.
Não vi por lá morte ou dor além das quais
nos obrigamos ter como lhes dizem ser.
Eu quero retornar ao meu Jardim-sem-fim
e quando anoitecer, como grãos de marfim,
estrelas brilharão no céu por ti, por si, por mim.
E assim a mais negra das noites trará
lembrança de um novo despertar!

A progressão de acordes da introdução alude à seqüência de acordes movimento anti-horário da Mandala dos acordes (ciclo das 5as). Os 3 pares de acordes iniciais carregam suas simbologias numéricas desdobradas dos arquétipos cabalísticos da obra. Ao fim da peça o tema-secundário é executado pela 3a e última vez.
A seqüência de acordes da introdução também simboliza essa quebra do padrão de pensamento e crença normatizados: F#m – C#m – G#m – D#m – A#m(Bbm) – Fm – Cm – … Esses 6 acordes menores nessa ordem seguem metade do ciclo das quintas. Eles poderiam tomar a mesma ordem continuando a seqüência dos ciclo das quintas (- Gm – Dm – Am – Em – Bm -) e assim retornando de novo a F#m, mas em vez disso surge uma inusitada seqüência de acordes, fora desde padrão, com acordes maiores, aumentados, diminutos e com 7a que harmonizam aquela mesma melodia (ou conceito) com outras cores nunca vistas ou ouvidas.
As cenas do 2° Ato estão permeadas de músicas e falas que exortam fé, crença e esperança em geral. O protagonista vislumbra que em planos de existência inferiores uma de suas mais marcantes características está presente ainda que em formas consideradas rudimentares. É um plano o qual o ser humano poderia permanecer por um longo tempo até que em algum momento dê o salto necessário para atingir os níveis superiores de existência, mas tal salto torna-se difícil, conquanto nos apegamos a conceitos fixos. Muitas vezes pô-los em dúvida ou vivenciar realidades fora de um círculo repetitivo de conceitos já enferrujados é o empurrão necessário para tal salto evolutivo e aí só a fé não basta, mas sim coragem, determinação e humildade. Por isso essa ária foi associada ao Trigrama “Trovão” ☳ – o prenúncio da tempestade, o arquétipo que exorta à busca do conhecimento e da espiritualidade tendo como base a sabedoria ancestral.


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