A U T O K R I P T O G R A F I A


Cena 3 – 2° Ato


Nesta curta cena a enteada-neta da Velha Fanática dirige-se ao protagonista em atitude piedosa e entendendo que este desconhecia todo o sistema religioso da Cidade de Gogam e seus mitos, expõe-lhe as razões de suas crenças e convida-o nesse entusiasmo a participar da mesma. Rouxinol escuta-a atentamente e nessa cena é cantada talvez a mais simples das árias do Musical acompanhada apenas de piano e violinos. A canção, em fá maior, é inspirada numa forma tipicamente religiosa, cuja letra também traz apologia à sua crença. Na parte que ela cita um trecho do “Livro Sagrado” ocorre uma modulação para um curto motivo musical que será de novo relembrado, com texto distinto, no 3° Ato.

O protagonista nesse momento está convencido que que esta recém-convertida moça possui um coração puro e deseja o bem de si mesma em sua forma mais intrínseca. Como ainda não foi marinada nas décadas de lavagem cerebral religiosa que os demais fanáticos que lhe rodeiam, nunca desenvolveu qualquer impulso em causar mal a outrem que não partilhe de sua ideologia. Ela de qualquer forma não conhece nenhuma outra ideologia ou realidade além da que lhe é apresentada naquele meio em que vive. Todavia em algum momento a insistência eufórica da Convertida, ainda que com intenções altruísticas, já se torna para o personagem algo agressivo (por conta das lembranças de experiências vividas) e ele deixa de ser um interessado expectador para indagar sobre as contradições doutrinárias, as incompatibilidades físicas e até mesmo sobre a realidade fática de que o Universo não se consiste do interior da caverna onde nenhum de seus habitantes jamais saiu. Tais questionamentos caem como um turbilhão na mente da Convertida que rapidamente é retirada da presença de Rouxinol, para que nenhuma dúvida da fé possa emanar.

“Acima de Mim Há Uma Lei”

Quando abri os meus olhos eu não vi as estrelas,
nem o mar, só a densa e fria bruma.
Mas em meu coração uma fé se fez tão forte
que me deu o calor para mover o meu ser.

Quando estiver no Altar, ofertarei minha Dor
E o Fogo que a fez amargar transmutará em Amor!


Não lamento meu pesar, não há sorte ou azar
se acima de mim diz a Lei:

“Toda Fome de Justiça será um dia aniquilada.”

Chegará nova Vida que É e Está!

No fim da cena o protagonista se arrepende de ter criado essa discussão, uma vez que as certezas de cada um permaneceram para si e pelo menos ela, que poderia estar feliz por levar um alento a quem está excluído daquela sociedade, vive uma profunda tristeza por não compreender porque Rouxinol não consegue perceber a fé que ela sente com tanta clareza. Com isso Rouxinol convence-se ainda mais que o Conhecimento leva à Infelicidade. De qualquer forma essa canção está entre umas das mais serenas e iluminadas do Musical, mesmo provindo da criatura mais humilde deste Plano Espiritual tão sombrio.


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