
Esta cena é o apogeu do 2° Ato quando o Gorgomestre irritado com presença de Rouxinol na Cidade de Gogam, levando seus fiéis a conjecturarem sobre a existência de um mundo além do que é visto e já conhecido. O Gorgomestre vê o protagonista como uma ameaça à doutrina vigente, pois além de não se submeter aos ritos, discute a validade dos dogmas, suscitando dúvidas nos fiéis. Assim Rouxinol é decretado como herege condenado à morte, mas pouco antes de sua execução ele consegue fazer os fiéis acreditarem que ele seria o salvador prometido enviado pela divindade e profetizado no Livro Sagrado. Como durante séculos a vinda de tal salvador fora sempre aguardada, grande parte da população fanatizada crê nisso e impede sua execução. Nesse momento se dá um embate entre dois interesses:
- o do Gorgomestre: de manter a ordem como sempre estava que significa a eterna espera da salvação prometida que nunca deve chegar – pois se um dia efetivamente chegar, seu domínio teocrático se encerra e ele passa a ser apenas mais um dos fiéis sem hierarquia,
- e o interesse da população doutrinada que cresceu com a promessa de salvação para uma vida eterna intermediada por um enviado divino – nesse papel Rouxinol aproveita a lacuna preenchendo muitos requisitos, uma vez que ele conhecia a saída da caverna submersa para o mundo exterior nunca visto pela população de Gogam.

O Manuscrito do livreto original resume bem a trama desta cena e como parte da população foi persuadida a se voltar contra o Gorgomestre. Vide o cap. 7 do libreto.
Esse conflito desencadeia uma luta entre os dois grupos antagônicos, onde os que acreditam que Rouxinol seja o envidado da dividade conseguem lançar o Gorgomestre nos abismos da cidade e assim seguem o personagem principal em direção a saída da caverna entoando em uníssono a ária n° 13 intitulada “Além das Paredes do Universo“. Esta é uma adaptação de uma peça de H. Villas-Lobo “…e o Pastorzinho Cantava” do seu Álbum “Histórias da Carochinha“. É muito recomendado que se escute primeiro a versão original de Villas-Lobo antes de escutar a versão adaptada para coral e orquestra do musical. Assim evidencia-se como uma mesma melodia com seus acordes originais pode ser diametralmente percebida com diferentes versões.
Sobre esta terra lavada de sangue
surge a fé que fará cada lágrima secar.
Salvem promessas benditas divinas!
Salvem aqueles que suplicam ter
Misericórdia por aqui nascer,
nascer, nascer…
Do altar desta tumba vazia,
cerceado de almas enfermas,
A mais densa das escuridões centelha
como a mais brilhante das estrelas.
Para que tantos olhos inúteis?
De que servem ouvidos no vácuo,
Se a verdadeira Luz que brilha está
num transcendente mundo a girar?

Apaguem! Apaguem! Apaguem!
Luzes ofuscantes, falso diamante és!
Sobre este chão encharcado de sangue erguem-se aos céus as ilesas Paredes d’Universo
Atreveremos transpô-las sem medo.
Não nos é dado certezas de que
Encontraremos um Amanhecer, nascer…
Quando Rouxinol se depara com a grande dificuldade de transportar os fiéis que o seguiu para fora da caverna, já que a entrada era sumersa em águas turvas, com a ajuda de poucos teve que transportar um a um amarrando uma corda no início e final do trajeto para que não se perdessem no caminho. Alguns desistiram por nunca terem feito tal incursão sob essas águas, mas a maioria finalmente o seguiu até a saída da Caverna e puderam vislumbrar o mundo exterior. Parafraseando o libreto no cap. 7: “… pela primeira vez naquela vida contemplaram a Luz e o Céu naturais“. O fiéis em júbilo interpretaram estar no paraíso e portanto agraciados com a salvação. O fim dramático da cena ocorre quando todos os féis foram transportados, incluindo os deficientes, as crianças, os idosos e pessoas enfermas restando na Caverna, relutante de passar pelo túnel submerso, a Jovem Enteada – cuja avó, a Velha Fanática, permanecera cética na Cidade de Gogam. Rouxinol puxou-a para a saída da caverna nadando o mais rápido possível. A Recém-Convertida crê firmemente que do outro lado do túnel submerso está a tão esperada “salvação”, mas por se considerar não merecedora ou pelo menos não digna o suficiente da redenção, relutava em seguir adiante. Apesar dos esforços exaustivos de Rouxinol para nadar rapidamente sob a água levando-a para a saída, ele emerge tendo-a morta em seus braços.

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