
A Árvore da Cabala
O último ato do musical é a apoteose e a chave central de Autokriptografia, por isso todas as árias são cantadas, ricamente orquestradas e acompanhadas de coro. As letras foram minuciosamente elaboradas para que o encaixe do simbolismo cabalístico refletisse o simbolismo musical e quando se diz que uma palavra é cabalística, vale aqui mais uma vez explanar esse conceito:
Quando uma palavra (ou frase) é dita cabalística, ela é a interface entre o sistema (na qual ela é empregada) e o Absoluto (o plano das essências, ontológico). Muitas palavras não são cabalísticas, quando não há correspondência ou ressonância entre seu significado literal e o significado do número que se obtém da soma se suas letras.
Quando ocorre essa correspondência, a exemplo das palavras “vil”, “ar”, “algemada” em seus respectivos contextos, trata-se uma palavra cabalística, carregada com uma vibração além de traduções do dicionário. Se o acorde e/ou as notas que ela for cantada alinharem com o mesmo significado, a ressonância do poder das mesmas é ampliado exponencialmente. Muitas vezes para alcançar essa ressonância o autor se armou de artifícios literários como escrever trechos que falados de trás para frente fica igual, como no verso 6 da ária 21: “…ser por só só por ser…” (42, 49, 34||34, 49, 42).

Na estrutura clássica da Árvore da Cabala as 10 Sephiroth são pelos 22 caminhos indicados pelas 22 letras do alfabeto hebraico que totalizam Os 32 Caminhos da Sabedoria. Em algumas correntes como a Hermetic Order of the Golden Dawn e sistemas herméticos posteriores cada caminho também é assciado a:
- Arcanos maiores do Tarot;
- Planetas e signos astrologicos;
- Elementos, estados de consciência, etc…
Em Autokriptografia as 10 Sephirots representam as 10 últimas árias que cantam a mensagem principal do musical ressonando com o simbolismo numérico e musical. Elas são executadas no 3° ato, das quais 7 delas se referem torturas que Rouxinol será submetido. Os 22 caminhos se relacionam com notas do sistema não temperado e seus 22 valores atribuídos, portanto existe uma nota de ligação entre uma sephiroth e outra. A Árvore Cabalística emblema a síntese da mensagem do musical e também está inserida num contexto maior conhecido como A Flor da Vida de forma que cada círculo representa a essência de uma ária específica.

O Musical possui uma pausa antes desta cena, pois metade do tempo total (cerca de 1h e 40 minutos) foi transcorrido e após esta pausa chegamos a última cena do 2° Ato, quando o pranto do protagonista pela perda de sua amiga, a Recém-Convertida da Cidade de Gogam, cujo nome ele não tomou conhecimento, assume uma forma mais introspectiva e silenciosa. As crianças que ainda o acompanham tentam lhe dar algum ânimo dizendo-lhe que o local onde se encontram é um plano espiritual muito elevado onde ele poderia ter contato com determinados mestres espirituais e que talvez pudessem ajudá-lo nas questões existenciais que o afligem.
Rouxinol sobe uma montanha onde encontra um Yogi indiano conhecido como Paramahansa Yogananda e travam um curto diálogo. O diálogo é esclarecedor, mas não melhora o estado de tristeza do protagonista que oscila entre a depressão e a revolta. Neste ponto é entoada a ária “Lamento ao Vento“, a 15a ária do Musical, uma orquestração do 6° fragmento da “Música-Mãe” a qual evoca a necessidade da essência do significado do Trigrama “Lago” ☱, uma vez que este estado de profunda tristeza atingido, ao contrário das outras árias que refletem esse sentimento, é desprovida de qualquer esperança.
Entrego ao Vento a minha Voz!
Vento que turva o Canto, minha oração,
Semeia em cada mundo o meu clamor pelo Amor.
Sopram ventos para o futuro incolor.
Longe da terra seca plantaste as flores em nome do Amor.
Cantai ao vento frio, que gela o teu coração,
a canção sem razão, destoante trio.
Ao longe um Jardim insulado e tranqüilo
Ele vive sonhando nesse estranho mundo.
Digam porque ele não pode ver o que fez para que se
Transformassem suas lágrimas em oceanos de agonia sem fim.
Mas se esta canção servir de alento
Entrego as asas queimadas do Sol,
Infeliz Rouxinol…

O protagonista não encontra em filosofias religiosas seja uma explicação, ou solução para o seu sofrimento e ao fim de seu canto final se atira do alto da montanha inciando uma vertiginosa queda que atravessa todos os planos espirituais em direção ao domínio do Umbral onde iniciar-se-á o 3° Ato.

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