
Além do corpo físico existem outros corpos que constituem o ser humano, cada um deles com suas ligações e sistemas entre si relacionados. Para quem reconhece como fato apenas o mundo físico, material, palpável, talvez seja difícil compreender que existem outras formas de sofrer além da Primeira Tortura, mas também é muito improvável que haja algum ser nascido – por mais materialista que tenha se tornado – que não tenha vivenciado um ou mais dos tormentos figurados nessas estâncias do 3° Ato. Para entender bem a seqüência dessas torturas simbólicas, alguma compreensão da disposição das Sefiroths cabalísticas é de grande ajuda, pois cada ária desse Ato é uma negação da qualidade da respectiva Sefiroth. Os 3 dígrafos do título musical (KR – PT – GR) estão diretamente associados às três colunas da Árvore da Vida conforme no diagrama abaixo.

A Segunda Tortura, associada ao ar entre o quarteto dos elementos, portanto é o dígrafo “KR“, localiza-se na Coluna de Binah (à esquerda, “Hod“) e nela é sofrida todo o sentido emocional da Vida. Como essa Coluna é do Karma quando ele é vivido como uma punição e não como instrumento de purificação, a 18ª ária foi intitulada “Os Tentáculos Asfixiantes da Realidade que Sempre É e Está“.
“Será um sonho? Ou agora acordei outra vez numa nova realidade?
Quem é você que não pode ver o que faz, o que diz e o que sente?
Uma criatura infeliz…
Não há outro ser que possa ouvir seu canto, tão profundo
neste mundo que é surdo, nunca sentido, nunca ouvido
por não tinir, por não soar ar…
Paz, pai
Gritos, hinos malditos, foram proscritos…
Gritos, hinos malditos, foram proscritos…
Gritos, hinos malditos, foram proscritos…
Eis minha Fala, eis minha Alma:
Quando um inocente é condenado,
deve ser o Juiz executado por não poder,
por não fazer, por não querer executar o executante
Oh Rouxinol, não tenhas medo de fugir
se a inconsciência de um milhão te afligir,
pois no Deserto escaldante e sombrio
a Honestidade – tão louvada – morre de Frio.“

Como reflexo, essa música é um dos 3 pilares básicos que sintetizam todo o musical. A ária é composta em duas partes:
- A primeira parte, um solo introdutório calmo formado pelo penúltimo dos 8 fragmentos da Música-Mãe, com melodia e texto carregado de muito sentimento e harmonia única. Nessa parte, a criança solista finca uma adaga no chacra laríngeo do personagem executando assim a anterior solicitação do Gorgometre ao Demiurgo para que este fique impedido de manifestar a dor através da voz.
- A segunda parte, mais agitada onde o coral se faz mais presente, lembra de início a ária da Primeira Tortura, mas logo depois se assemelha a mais uma antiga canção regional folclórica infantil chamada “Carneirinho, Carneirão” – obviamente com outra letra e recheada de simbolismos e terminando numa nova tonalidade (mi bemol menor) de maneira dramática, após modulações imprevisíveis com a execução da criança por asfixiamento.
Se a essência dessa instância da agonia infernal, simbolizada pelo Trigrama ☲ “Li” (fogo) ainda não foi clara, resumidamente se refere ao sofrimento interno e impossibilitado de ser externado. Assim pode-se afirmar que o refinamento dessa Tortura é superior à Primeira, quando a dor interior é calada por força externa a ponto dela ecoar somente na mente quem a vivencia.

Deixe um comentário