A U T O K R I P T O G R A F I A


A Sétima Tortura


A última tortura que o demiurgo invoca para tentar persuadir o protagonista de que a infelicidade e o sofrimento podem ser continuamente extrapolados no mundo espiritual é cantada mais uma vez com grande orquestra e coro numa melodia retumbante e ritmicamente marcada. Aqui o contraponto entre felicidade relativa e absoluta é retomado em discussão na 23a ária em mi menor “Limites Incomensuráveis“.

O Demiurgo argumenta que a Felicidade Absoluta é uma utopia, impossível para o ser humano seja qual for seu grau evolutivo e tudo o que Rouxinol vivenciou e conheceu é prova disso. É alegado que até mesmo o estado imensa infelicidade do personagem, para outra entidade poderia ser uma felicidade. O diálogo é bastante carregado de símbolos e através do canto da crianças engaioladas onde o relativismo atribuído à felicidade está muito longe de definir ou abarcar a realidade da felicidade absoluta, esta, muito longe de critérios de possuir ou mesmo aparentar algo. A Felicidade Absoluta seria, apesar de incompatível com ser humano enquanto encarnado, plenamente possível no mundo espiritual e ele próprio (Rouxinol) vislumbrou em Selma. Tal estado quando alcançado seria incorruptível e portanto não mais sujeito aos revezes dos acontecimentos da vida que com seus altos e baixos levam a sugerir que um estado seria mais feliz que outro. O personagem admite que está muito longe dessa plenitude e desconhece como atingi-la, mas que longe de ser um êxtase eterno é simplesmente a impossibilidade de não estar mais sujeito a quaisquer tormentos que afligem o ser humano. Rouxinol assim ratifica que por isso tudo não só já atingira a Infelicidade Absoluta muito antes das 7 Torturas, mas também seu próprio espírito transmutou-se nela e que a única possibilidade de mudança de seu estado seria a dissolução de seu espírito, a aniquilação do seu ser, algo fenomenalmente impossível, mas que paradoxalmente poderia lhe aproximar da Felicidade Absoluta.

O Simbolismo da Sétima Tortura

A Felicidade Relativa sempre foi tradicionalmente associada ao Arcano 10 (A Roda da Fortuna), que representa a alternância da condição humana girando e tomando posições diferentes ao longo do tempo. Mas seu sentido e existência é dependente de quem a ela se sujeitar e essa não sujeição já tomou muitas formas na história do ser humano pela busca de um equilíbrio como a vida monastérica a mortificação dos desejos. A Roda da Fortuna mostra que cada ponto de sua borda é sempre posterior (ou superior) a outro ponto (ou estado) e em suma todos esses pontos são equivalentes entre si exortando assim a ideia do relativismo da felicidade. Mas mesmo esta roda simbólica precisa de um CENTRO, um eixo, imóvel sobre o qual aquela gira. E esse ponto é localizado por nenhum ângulo da roda. Em verdade este centro é absoluto nessa alegoria. Analogamente afirma o personagem a existência da Felicidade Absoluta em uma realidade completamente fora do relativismo físico-astral.

Limites Incomensuráveis

Ex abundanctia enim cordis os loquitur!
Trocas res! Tor niorju!


A criatura que anseia ser ceifada
É a que lhe cabe eterna punição.
Mas aquele que a julgou como culpada
Escarneia da Lei Santa do Perdão.

Há quem diga ser feliz por não viver,
Há quem diga ser feliz por não amar,
Mas por detrás deste enganoso júbilo
Envenena a si por não tentar.

Qual tormento te fará estremecer?
Qual limite haverá na tua dor?
Se a minha mão cair em peso sobre ti,
Teu sofrimento se reduz a pó.
Eu te digo que felicidade plena é aquela que jamais…
– É aquela que jamais… – é aquela que já jaz…

Tenebroso pesadelo é a vida
Desprovida do amor que lhe faz bem.
Se não fosse a longeva esperança
a guiar-te em franca liderança
Não teria um motivo pra sonhar.

Quando interrompestes a seringa de estanho
Na cidade dos domos junto a ti escutei
Tua dor que ecoa dos céus às profundezas dos abismos infernais.

A Flor, a Flor, a Flor da Vida em mim floresce.
A Dor, a Dor, a Dor nunca destrói a alma de quem amou.
Teu silêncio entoava uma canção de amor
Vindo em formas de lágrimas, pus no papel.

E tornastes aos poucos mais frio e indiferente
Com açoites e espinhos que te dei de presente
E ninguém por ti fará algo que inspire o dom viver.
Amém! Loscar! Toberal!

O espírito que anseia ser ceifado
É o que lhe cabe eterna punição.
Mas aquele que o julgou como culpado
Escarneia da Lei Santa do Perdão.

A coreografia desta cena é rica em movimentos e figuras diversas principalmente em trajes religiosos e ao fim da música, 16 espadachins empunham suas espadas em direção ao redor do personagem formando um semicírculo quando a última nota é tocada. É um momento de grande tensão e medo, pois o demiurgo, ensandecido de raiva, paralisa todos os movimentos dos demais personagens e ameaça Rouxinol com a dissolução de sua alma, a não-existência, numa última tentativa de provar para si mesmo seus axiomas, dando início tempestivo à próxima ária.


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