A U T O K R I P T O G R A F I A


A Terceira Tortura


Pode-se sem medo afirmar que a causa de qualquer infelicidade (física, mental ou espiritual) é uma carência, seja ela um sentimento ou uma falta de fato. Se há falta de nutrientes, isso pode gerar doença e sofrimento decorrente; ou se há falta de recursos mínimos para a sobrevivência. Indo mais além, falta de amar e ser amado, falta de reconhecimento, falta de informação, conhecimento, Luz – todas esssas carências são fontes de infelicidade e essa necessidade humana quando não é suprida, é o tema da Terceira Agonia do inferno simbólico, associada à água no quarteto dos elementos.

O Personagem ainda atado à placa de estanho incandescente e recém cravejado com a adaga na garganta é posto a ser erotizado ou seduzido pela personagem Ana Alice (vide a cena 4 do 1° Ato). Ela aparece bem menos comportada, mas também totalmente deslocada de seu ambiente ainda que seja mais uma das habitantes deste nível do Umbral.

A 19ª ária inicia com uma longa e quase irritante introdução semelhante à da Primeira Tortura, porém meio tom acima, em mi bemol menor, que foi a tonalidade que finalizou a ária anterior. Enfim modula para mi menor com um ritmo muito marcante e repetitivo como soaria as últimas batidas do coração. Em clara alusão à história pregressa do protagonista, a canção entitulada “Desnutrido de Amor” é declamada:

“Desnutrido de Amor”

“Quantos seres vieram declarar
o Amor com palavras no altar
Um amor que ilude só a si
                                 Um amor que ilude só a si
                                                                  Um amor que ilude só a si.

Mas a Flor que nos deixa respirar
será só, posta em um vaso a enfeitar.
Sua cor é Verdade, seu odor é bondade
ou virtudes que ninguém hoje mais quer.

Um afago e um beijo implorou
na volúpia proclamou
sua própria maldição.

Esses beijos e afagos irreais
antes não fossem pelo que além veio mais.
Agradeço humildemente quem de mim se preocupou,
mas palavras não eximem o Amor.”

A Flor citada na segunda estrofe da ária, representada fisicamente pela que foi oferecida pelo protagonista às 3 mulheres do 1° Ato, simboliza a Flor da Vida – a materialização definitiva da Centelha Divina. A Flor “que nos deixa respirar” é portanto o estado anímico que diferencia um ser vivo de um ser morto. A terceira estrofe alude à queda do personagem principal.

Enfim o Demiurgo lembra que a existência do personagem não foi inteiramente desprovida de afetos ou de alguma alegria e este responde que tais ocorrências não libertaram-no das carências que terminaram por deformar sua alma, mas pelo contrário, produziram-lhe ainda mais males disfarçados de falsas alegrias.

A Flor da Vida

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