A U T O K R I P T O G R A F I A


Cena Final


A cena final inicia-se imediatamente com a última ária (N° 25) em Ré maior com o último fragmento da “Música-mãe”, onde o tema principal será de novo entoado. A introdução e a apresentação desse tema é muito semelhante à 2a ária, no entanto há uma orquestração mais ampla e todo o coro acompamnha ora simultâneo ora alternandamente os solistas. A Nota final é a mesma que iniciou-se na Abertura, de forma que encerra-se um ciclo como um parêntesis musicoterapêutico. Escutar essa última ária é essencial para desfazer todo sentimento de tristeza e desesperança que as 9 últimas árias suscitam, em especial a penúltima que é o ponto de depressão emocional máximo. Por isso essas duas seguem-se sem pausa para que haja a transmutação no espectador de tais sentimentos.

Selma e outros anjos forçam os portões do inferno que cedem e deixam passar a Luz da Consciência. Os seres que tentaram até o último momento manter os portões fechados são cegados por essa Luz – o que se interpreta como um empurrão evolutivo às criaturas que se encontram estagnadas nos níveis evolutivos mais inferiores. Nesse momento as crianças engaioladas a reconhecem e falam em nome de Rouxinol – “Selma, por ti eu vivo, por ti eu sofro!”. Selma replica imediatamente dizendo que só sofrer não é viver. E aqui lança-se conclusão a um ponto chave de toda estória no que toca ao objetivo do sofrimento na Vida e na Evolução.

Em sua entrada no Inferno Selma é ainda enterpelada pelo Gorgomestre e pela Velha Fanática com 2 inquisições: “és anjo ou demônio? és carne ou espírito?” A primeira pergunta é o contraponto contrastante que usualmente classifica-se quem está fora dos padrões humanos comuns: Ser carimbado de anjo ou demônio. Numa dessas duas categorias é enquadrado qualquer Ser especial, como Selma ou Rouxinol. A segunda pergunta tenta categorizar o Ser como físico ou metafísico, num claro desconhecimento que tais categorias não são excludentes. Portanto as 4 combinações desses rótulos (um anjo carnal, um demônio carnal, um anjo espiritual, um demônio espiritual) são equívocos dignos das entidades do submundo que perdem seu tempo rotulando. A resposta de Selma é tão luminosa que fulmina os interpeladores.

Selma enfim lança Luz de Sabedoria sobre Rouxinol ainda atado à placa incandescente de estanho e o corpo astral intensamente ferido com as 7 torturas é separado do corpo mental pleno e intacto. Este levanta-se livre e são em direção a Selma. As crianças desaparecem da Gaiola Infernal marcando a superação das 9 personalidades que elas representam. O último entrave é o Demiurgo, que se ocultara nesse ínterim, retorna rapidamente sob a forma de um mítico dragão ameaçador, mas é imediatamente fulminado pela Luz conjunta de Selma e Rouxinol. A partir daí ambos elevam-se envoltos numa espiral de anjos ascendentes, a princípio lentamente, por cada nível evolutivo do Plano Astral até o limite o Plano Mental Superior, onde o corpo mental dissolve a individualidade e mescla-se à Mônada Criadora – Aqui é realmente possível a Não-Existência, ou melhor, a existência em identidade com o Universo.

A interpretação deste final é múltipla e não-excludente, seguindo os princípios da Cabala. No Plano literal é um clássico, embora exótico, final feliz após as tensões que antecederam. No plano metafórico são muitas as considerações principalmente as de natureza psicanalítica que moldam a percepção do ser humano. E no plano cabalístico a complexidade desse tema e de cada uma das interpretações foi codificada nas seqüências de notas, seqüências de acordes e frases cantadas. Seria muito extenso um detalhamento para um resumo conciso.

“A Espiral Desoxirribonucleiforme”

– Antes que se formassem a Terra e o Céu viestes a existir.
– Selma, por ti eu vivo, por ti eu sofro!
– Mas o sofrer só por ti será viver,
e
verdadeira vida está por vir.

– És anjo ou demônio?
– És carne ou espírito?
– Excedam os limites castrantes de seu ser!

A Vida em ti contida só em si é
A mais visível presença que a Consciência
Nunca está só.

– Selma, não ouças calada a aflição desses sons
São gritos de dor da acerba e pungente
Vida erma de amor.

Céu ou inferno não déle expunge nem risca
O tormento de quem vive apenas
Em ti e por si.

Hoje no Jardim Sem Fim somos enfim
Mais que dois, agora um Alcançar à Evolução.
À direção da força motriz
Que está contida em cada Spin.

– Se ainda disserem que tudo é mentira?
– Como também são aos surdos a música e o som.
– Mas e quando termina a Evolução?
– Como tudo que é infinito retornando para Deus.

Assim como gotas que caem n’Universo…

Uma das mais claras correlações desta cena final onde a apoteose é realmente a transcendência libertadora de Rouxinol está no acompanhamento que o piano executa sobre os acordes de sol e fá alternadamente. O próprio arranjo evoca um movimento em espiral ascendente e até mesmo sem escutar, pode se ver pela disposição das notas nas partituras. E em resumo é expressado dessa forma o desejo e as idéias do compositor para cada um que escutou as 25 árias do musical “Autokriptografia“.


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