
Confirmando-se que as 7 Torturas infernais já fazem parte da essência do protagonista e quaisquer outras são irrisórias diante daquelas, o Demiurgo decreta num acesso de raiva a completa dissolução do Espírito de Rouxinol, invocando-lhe a Não-Existência e ironizando que nela encontrará o Amor procurado (não existente). Um casal de jovens surge e olham-se, abraçam-se e beijam-se apaixonados cada um portando em uma mão uma seringa com agulhas de estanho. Eles aplicam as injeções simultaneamente no pé e na cabeça do protagonista ainda imobilizado na chapa incandescente. Supostamente o líquido das seringas é o antídoto da Existência, a essência da morte espiritual.
Ainda que seja o desejo, tanto do protagonista no anseio de livrar-se de sofrer eternamente, quanto do Demiurgo de conseguir provar que pelo menos na 7a Tortura alcança-se um sofrimento maior que qualquer já experienciado por uma alma, a Não-Existência é um paradoxo em si, pois tudo existe em algum Plano de Existência. Um único átomo não pode deixar de existir, não pode ser destruído ou aniquilado de forma que suas partes e energias constituintes deixem de existir. A Existência é uma Lei universal cuja invalidação compromete a existência de todo Universo. As formas podem sim, temporariamente existir ou não nos Planos inferiores, mas a essência será eterna. Mas isso não significa uma imutabilidade, pois tanto as formas como as essências passam por suas transformações ainda que sejam aparentemente aniquiladoras.
Nesta curta cena entoa-se a 24a ária intitulada “Oceano de Agonia” que é uma continuação da ária da abertura do musical interrompida, encerrando em lá menor após um ciclo de progressões harmônicas descendentes. Não há solistas nessa ária. O canto é entoado por um coro de vozes masculinas, femininas e infantis.
Vem, criança celestial em silêncio sepulcral.
Estará segura em seu túmulo de cristal?
Sempre armado pela inércia das defesas infantis,
Inimigos superando dos mais fracos aos mais vis.
Sob as trevas abissais, esquecido nos umbrais
implorando aos céus a vida que a ti não ouvem mais.
Se alguém mais descobre o Tormento, o Universo explodirá!
(não suportando o peso da consciência em seu furor!)
pois não há sofrimento que tentem reproduzir
maior que esse oceano sem fim…

Outrossim, considerar que a Não-Existência é impossível, já que tudo existe em algum plano, seja em forma física, astral ou mental geraria uma contradição na própria Lei, uma vez que se TUDO existe, a Não-Existência também em algum plano teria que existir. Alcançar o entendimento desse “Vazio” – em sânscrito: शून्यता (śūnyatā) – é o ponto ou um dos pontos de total inflexão do espírito, simplesmente translada-o para Planos de Existências muito acima do Mental Inferior. Obviamente o autor não dá a entender tal conhecimento, mas expressa esse paradoxo nesse momento derradeiro do musical.

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