
O último Ato é o mais longo e representa o cerne principal de Autokriptografia por expor todo o conteúdo da estória em todas as camadas de significados. Nesse momento, o personagem principal encontra-se num esteótipo de inferno. Obviamente o local e o cenário são também claramente uma representação de um estado mental, ou espiritual. Um local onde a busca da amada cessa diante das cenas terríveis e o personagem que simboliza o demiurgo da aniquilação é visto como um demônio encarregado de distribuir sofrimentos variados e personalizados a cada vítima. Nesse local o personagem é confrontado a comparar seu próprio sofrimento com quaisquer um daqueles que lá se dispõem. O demiurgo quer lhe provar que em alguma instância o sofrimento do personagem é irrisório diante do que é possível ainda mais sofrer. Com isso alguns dilemas ou paradoxos são expostos:
O Paradoxo do Limite do Sofrimento:
É bem sabido e provado pela psicofísica que as sensações audivas, visuais e táteis não são diretamente proporcionais ao respectivo estímulo que as provoca, podendo inclusive sequer haver algum estímulo para que tal sensação seja experimentada, bem como a existência do estímulo fisico também não é uma garantia que haja uma percepção a ser “sofrida”, Nesse Ato pretende-se demonstrar que o sofrimento humano (físico e psíquico) tem um limite máximo ao qual aumentar o estímulo indefinidamente não implica numa extrapolação desse limite. Numa analogia mais simples, se uma pessoa está no limite do sofrimento físico (ou psíquico), aumentar os estímulos que produzem esse sofrimento não implicará em aumento de sofrimento (uma vez que o limite já foi atingido) – Esse limite é sempre simbolizado em toda peça pelo elemento estanho (50Sn) – 14° elemento do 5° período da Tabela Periódica. Sendo assim não seria possível a existência de sofrimento infinito (Também denominado como “Infelicidade Absoluta”).

O Paradoxo de Paramahansa Yogananda:
Entre os estudiosos do espiritualismo é de consenso comum que quanto mais alguém se torna consciente de si e do Universo, mais próximo está de uma felicidade intrínseca e plena. E inversamente, quanto menos consciente são as criaturas, mais elas estariam sujeitas às intempéries dos altos e baixos de felicidade e infelicidade. Ou seja, um indíviduo que atingiu um estado alto de consciência, conseqüentemente estaria pleno de felicidade e que estar infeliz é uma propriedade dos indíviduos com baixo grau de consciência. O Paradoxo é evocado quando se canta nas músicas a frase “Infelizes Conscientes” se referindo ao fato do personagem encontrar em diversos graus de inconsciência, um estado de plenitude ou felicidade acima do que ele atingiu como buscador da Consciência. A primeira ária desse Ato (a 16ª do musical) é a entrada do Inferno tem esse Paradoxo como tema cantado pelos diversos habitantes do Umbral.
Nessa ária em sol menor encontramos instruçōes e premissas criadas pelos algozes do personagem principal:
- O Demiurgo se declara o primeiro injustiçado pelo Criador Universal;
- Afirmação da inexistência do Limiar do Sofrimento;
- O Paradoxo de Paramahansa Yogananda;
- O anúncio das 7 Torturas.
Imediatamente ao fim dessa ária, que juntamente com o cenário, coreografia e música evocam o estado mais lúgubre do ser, iniciam-se as 7 Torturas, pretendendo-se cada uma ser mais intensa e profunda em relação à anterior.
Torturas do Plano Físico (1, 2, 3 e 4)
Torturas do Plano Astral (5, 6 e 7)
Aqui estamos nós produtos da Criação.
O sonho da Esperança há muito se extinguiu.
Deus do Universo, escutai nossa Oração:
Imploramo-te a graça de deixar de existir.
Existência torturante, ainda não conheces as Entranhas Abissais
onde gritos ululantes sempre ecoam nos abismos infernais.
Deus d’universo, de mim és criador!
Se sou pai da mentira, da mentira és avô.
O terror dessas crianças será minha mensagem
à divina onipresença que omite a sua parte.
Oh, ser maldito, comprazes em nos dar nós.
És tu o Renegado, mas estás melhor que nós.
– Das vossas bocas eu farei tinteiros,
as vossas línguas serão penas molhadas,
os teus dentes servirão de letras
e pelos olhos uivarão cartas lacradas.
Somos evi(l)dentes testemunhas do horror
em que eternizamos em louca e lenta histeria.
Mil trilhões de pupilas lacrimejam tua dor
vivendo em cada segundo os tormentos da eterna agonia.

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