
Os mesmos ambientes harmoniosos ou drásticos existentes no Plano Físico são igualmente presentes no Plano Astral, de forma que se pode afirmar que o mundo físico é uma sombra da realidade astral, muito mais vasta e completa. Todavia, esse mundo espiritual é invisível ou pouco percebido pelos seres do Plano Físico, ditos “encarnados”. O grau de consciência e evolução ética de cada ser que se desenvolve no mundo material retorna a um correspondente estado no mundo espiritual.
O Segundo Ato de “Autokriptografia” se passa num desses umbrais onde habitam seres que comungam determinadas crenças dogmáticas, intransigentes no pensamento e fechados à realidades desconhecidas. Um mundo onde só existe aquilo que é visível e o que sempre foi dito que é, onde as regras da vida são ditadas por inquestionáveis líderes e tradições, contra quaisquer pensamentos divergentes. Estes inflamam o ódio mais intransigente em certas almas que as cegam e instigam o desejo de morte daqueles que não se alinham na totalidade do fanatismo ideológico ou religioso.
Baseado na clássica passagem da “Caverna de Platão”, com determinadas alterações e adaptações, é encenado este Ato. O protagonista e duas das crianças que o acompanham, anteriormente sugados num redemoinho, chegam a uma gigantesca caverna separada do mundo exterior por uma tortuosa passagem submersa. Nesta caverna eles encontram uma cidade cercada por abismos profundos. O acesso se dá por pontes sobre esses abismos e os habitantes dessa cidade viviam numa forma de teocracia liderada pelo denominado “Gorgomestre” – um sumo sacerdote que governava e julgava segundo sua interpretação dos escritos da única obra milenar escrita desse povo – “O Livro Sagrado”!
O Livro Sagrado

Qual ideologia, religião ou filosofia não tem seu conjunto de axiomas invioláveis? – Conceitos pétreos dos quais se derivam as demais exortações, conclusões e leis. Ao longo dos milênios, a Humanidade conheceu algumas dúzias deles, os quais, ainda que escritos com a mais nobre das inspirações, foram postos como a palavra final sobre tudo e todos. Suas letras e vírgulas são indubitáveis e tidas como eternas, levando seus adeptos fanáticos a se eternizarem numa forma de pensar estática e inflexível. Aos olhos e entendimento desses adeptos, aquelas palavras têm um sentido mágico, superior e divino, ao ponto de nunca poder sequer passar pela mente delas a possibilidade de tais frases serem incorretas ou de sentido diverso ao literal.
“O livro Sagrado” – citado diversas vezes no Segundo Ato – representa qualquer um desses dogmas religiosos ou ideológicos impostos a gerações de pessoas que do nascimento à morte foram privadas da busca do conhecimento. Este livro simboliza uma sentença de morte ao pensamento livre, à vida de forma natural e definitivamente é uma agressão à Essência do Universo. Suas enigmáticas frases e fábulas épicas são passíveis de interpretações as mais diversas e ao sabor dos interesses da classe que detém a exegese final autorizada. Nesse contexto vivia a população da cidade de Gogam de onde determinados personagens aparecem pela primeira vez na estória:
O Gorgomestre

O Gorgomestre é o Sumo-sacerdote da cidade de Gogam. Ele considera-se a ligação entre a população e a dividade cultuada. Ele incumbe-se das questões mais importantes da sociedade, julgamentos e ofícios sacerdotais. Ele tem a última palavra na interpretação do Livro Sagrado por julgar a si mesmo como infalível e exemplo máximo da moralidade. Está sempre exortando os fiéis a seguirem os ditames religiosos sob a promessa da vinda prometida “Salvação” – que em seu benefício deve vir o mais tardiamente possível para que ele possa perpetuar seu poder e controle absoluto.
A Velha Fanática

Essa personagem representa o puro extrato do fanatismo cego e intolerante. Alguém que passou toda uma vida limitada pelos conceitos que acreditou e impôs aos demais e principalmente à sua enteada-neta recém-convertida. Ela almeja com isso ser recompensada pela divindade nesse engajamento e acredita que seus atos estão em conformidade com a moral e ética vigentes, mesmo que cometa em nome de sua ideologia as atrocidades mais bestiais que um cordado possa conceber.
A recém Convertida

A enteada-neta e pupila da Velha Fanática é uma dedicada estudiosa do Livro Sagrado e procura cumprir à risca os rigores da seita de Gogam. Sua inspiração de vida provém de cada um dos versículos lidos durante os cultos e acredita que a divindade cultuada é a fonte de toda justiça e bondade à qual todos devem venerar, não pela força ou imposição, mas por conversão espiritual plena. A récem-convertida, cujo verdadeiro nome fica-se sem saber, é o esteótipo de todos os recéns-convertidos que muito antes de atigirem o grau fanatismo necrosante, exalam um amor sincero no despertar da espiritualidade.
Cenas do 2° Ato
