A U T O K R I P T O G R A F I A


Cena 6 – 1° Ato


Nos raros lampejos onde a razão predominava sobre as turbulentas emoções do protagonista, ele reflete até que ponto os sentimentos em relação a Selma seria amor ou uma obsessão unilateral. E, caso fosse essa segunda opção, é algo pelo qual realmente valeria sacrificar uma existência? Sendo um amor puro e genuíno haveria ainda reciprocidade por parte dela ou estaria na hora dele seguir seu caminho sozinho ou mesmo talvez encontrar um novo amor menos inalcançável?

Suas experiências pregressas na busca de um amor lhe trouxe feridas profundas suficientes para dificultar qualquer novo recomeço, mas nesta cena ele chega numa pequena aldeia onde lhe chama atenção o barulho de pessoas rindo e conversando misturado com música vindo de uma taverna aparentemente bastante freqüentada. Lá ele timidamente entra em contato com os moradores daquela aldeia que pareciam não se importar absolutamente com nenhuma das questões existenciais ou conflitos que atormentavam Rouxinol. Portanto um mundo diferente para ele, onde as preocupações se resumiam à diversão e outras alegrias advindas das melhores lembranças que suas vidas lhe proporcionaram. Nesse ambiente Rouxinol tenta ainda que timidamente interagir.

Como música de fundo ao final dessa cena mais leve e desapegada ornamentos esotéricos, escuta-se a 6a ária “Um Olhar Sobre Ana Alice” – um trio instrumental com um tema e contratema simples, ainda já haja nesta despretensiosa peça elementos harmônicos e simbólicos que serão ampliados no último ato do musical.

“Um Olhar Sobre Ana Alice”

Quando Rouxinol estava já minimamente envolvido naquele ambiente social, a garçonete lhe pergunta se deseja tomar algo. Esta nova personagem extremamente atraente e sedutora encanta o personagem principal de forma arrebatadora. Rouxinol se limita a perguntar-lhe o nome. Esta lhe responde: “meu nome é Ana Alice”. Neste momento e neste nome simultaneamente as três camadas de significados estão presentes, cujas ferramentas para decifrar já foram expostas nas considerações das cenas anteriores.

Nesta cena onde aparente pouco ou nenhum diálogo profundo é recitado, muito há expresso de forma não verbal. Tudo aquilo que se passa na mente e nas emoções do protogonista permanece em seu labiríntico mundo de elucubrações sobre o que pode ser em vez do que se é. Ainda que tomado pelo encantamento da garçonete sedutora, ele é consciente que há uma clara distinção entre paixão ardente e amor profundo e que ambos não podem ser conscientemente escolhidos, mas somente identificados. Nesse mundo dual, o possível e palpável é finito e efêmero. O substancial e eterno é inalcançável sendo para ele mais uma evidência que percorrer o caminho evolutivo significa se afastar de um estado de felicidade (ainda que aparente).

Felicidade Absoluta

Existe um misto de cobiça e surpresa nos vários sentimentos pouco externados pelo personagem ao se deparar com tantas pessoas diferentes unidas em entretenimento social. A qualquer um que se pergunta se está feliz a resposta seria um sim sem muitas conjecturas, uma vez que as bases do que se considera-se necessário para ser feliz estavam ali presente: saúde, bem-estar social e interno. Porém a Rouxinol tais bases eram inexistentes ou insuficientes. Daí se extrai a relatividade do conceito de felicidade. Mas o que seria a felicidade absoluta? Uma utopia? Esse ponto fica em aberto para posterior análise.

As Tonalidades como campos narrativos

Assim como a soma das notas de um acorde resulta em número que o caracteriza, as tonalidades maiores e menores também estão associadas a um número que é a soma das 7 notas de que é formada. Essa correspondência não é biunívoca, pois para escala maior há uma menor primitiva com as mesmas notas e portanto o mesmo número. Cada tonalidade evoca uma forma de pensar distinta que é explicada pela simbologia do seu respectivo número.

Ao longo do musical, as árias passam por várias tonalidades que funcionam como um tecido narrativo de um evento e a harmonia daquele trecho formada pelos acordes são como palavras, o texto narrativo musical arquetípico. 9 dessas tonalidades são “basais” evocam o pensamento e o sentimento básico do personagem. Cada uma dessas tonalidades associa-se com um tipo do eneagrama e portanto com uma das 9 crianças.

TipoTomNúmeroÁria
IRé maior41N° 25
IIDó maior43N° 6
IIISol menor44N° 17
IVFá maior44N° 12
VSi b maior45N° 18
VIRé menor43N° 22
VIILá maior40N° 21
VIIISol maior42N° 20
IXLá menor42N° 24

Apesar de serem 9 tonalidades, elas correspondem a 6 números (40, 41, 42, 43, 44, 45). As tonalidades menores utilizadas para esse cálculo são as harmônicas. Levando em conta que temos no sistema temperado 12 tonalidades maiores e 12 tonalidades menores, essa progressão de 40 a 45 reflete constante e lenta forma de pensar, ao contrário das demais tonalidades (que estão fora dessa tabela) refletem pensamento e evolução assimétrica. Quando se passa para tonalidades com bemóis, temos uma mudança de nível o ontológico e quando se passa a tonalidades com sustenidos temos um salto de camada simbólica.

Cada tonalidade pode também ter um valor diferente a depender da grafia musical. A escala de dó sustenido não é equivalente a ré bemol no sistema não temperado. O ouvido pode perceber uma equivalência, mas o sistema no qual Autokriptografia foi escrito essa equivalência é dúbia – são narrativas diferentes de um mesmo pensamento.


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